segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A secretária do Analista da Pitangueira

Estávamos só nós dois na recepção do consultório havia uma meia hora. Já  tinha visto aquela mulher umas duas ou três vezes ali, mas só de passagem, um chegando e o outro saindo. Nossos horários deviam bater em algumas sessões.

Desta vez ficamos sentados frente a frente. Examinei-a em todas as curvas. Olhei bem para seu corpo, pernas grossas interessantes, cabelo de um loiro intenso, maquiada para uma noite de festa de gala, decote generoso ofertando seios fartos, um sorriso enigmático e havia aquele olhar entre sedutor e fatal literalmente na minha direção.

A secretária gostosinha chegou à sala, olhou para mim que olhei para sua boca deliciosa e ao mesmo tempo na sainha justa que salientava seu corpinho de miss, deu o recado:
- Desculpe o atraso, isto não é comum. O analista nunca atrasa. Vou ligar para ele.

A mulher nem sequer olhou para ela. Me devorava com os olhos, a danada. Quinze minutos de silêncio intenso foram quebrados com uma pergunta dirigida à minha pessoa:

- Você já reparou que todas as pessoas que conhecemos morrem?

- Olhei para ela, inevitavelmente baixei os olhos para seus peitos e coxas, olhei de novo nos seus olhos e levantei a sobrancelha direita, abrindo as duas mãos em palmas indagando silenciosamente onde iria dar aquilo.

-  É sério. Os gatinhos, os cachorrinhos, os passarinhos, parentes, amiguinhos, amiguinhas, o desejo, todos morrem. Uns morrem de partida, outros morrem de chegada, uns morrem de vez, outros de desaparecimento.

- Aí percebi que era sério. Ela não estava brincando. Então resolvi entrar no diálogo mórbido - e como você encara estas situações de morte?

- Não sei, pode ser que eu esteja divagando ou pode ser que não. Um dia estarei morta? O que valeu a pena nesta vida? Por exemplo, até as paixões. Você pode apaixonar repentinamente por alguém e nunca falar nada, então é você quem morreu. Também pode acontecer de que um dia a gente amanhece e descobre que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem. Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela. Então esta pessoa não morre, e se alguém me amar muito, eu também não morro; mas e aqueles beijos abrasivos em bocas soltas? Morreram todas aquelas bocas?

- Interessante esta sua teoria. Como você se chama?

- Eu me chamo de sua, se quiser...

- Entendo... 

- Bobinho, com certeza você já percebeu que nós mulheres temos um instinto caçador selvagem e fatal, que faz qualquer homem sofrer e sentir prazer nisto...

- É... muito interessante isto daí...

- Eu sei disto, como sei e você sabe que se apaixonar é inevitável; que as melhores provas de amor são as mais simples; que o comum não atrai pessoas como eu e você...

- Nossa, você fala de um jeito...

- Eu quero mais que falar deste jeito com você, e sei que de bonzinho você não tem nada. Estamos aqui, neste turbilhão de pensamentos e barreiras, desconhecidos e carentes. Olha como você me olha. Olha como eu te olho. O que há de desconhecimento nisto?

- É... lembrei daquela frase famosa -  "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."

- Nossa, esta frase é ridícula - serve bem para cachorros, gatos, vacas, mas você não pode se tornar responsável pela devassidão de um amor louco, apaixonante. Não há responsáveis pelos danos e prazeres de uma colisão de desejos. Um novo amor não preenche a lacuna do anterior, apenas faz com que você se despeça dos seus mais terríveis pesadelos. Se um dia perceber como um grande amor te faz falta, lembre-se querido, que a falta de um grande amor é um buraco sem fundo, que deve ser deixada prá lá até ser coberta pela poeira do tempo.

Nisto, a secretária abre a porta e anuncia:
- O senhor pode entrar.

Mas e ela? Já estava aqui quando cheguei.

Ela? Quem é ela? Está aqui nesta sala?

Foi quando percebi que não havia ninguém lá... Olhei para o vazio, para a secretária, para o vazio, para a secretária... levantei e dei um beijo escandalosamente apetitoso na sua boca que eu desejava desde o primeiro dia. No primeiro momento ficou tensa, depois foi relaxando, relaxando, relaxando e quando pensei que estava gostando, deu-me um joelhaço em sentido ascendente, na velocidade da luz, com força de alguns megatons. Expressei um gemido abafado e ao dobrar os joelhos em dor profunda, ela, de mãos espalmadas, aplicou-me uma impactante compressão nos dois ouvidos, que acelerou minha queda e provocou vômito.

Fiquei algum tempo desacordado, que não sei precisar. Ao abrir os olhos a secretária não estava mais na sala. Deparei com a loira e seu sorriso fúnebre a lançar-me profundo olhar de lamento pela situação embaraçosa. Fui embora me sentindo o pior dos piores, o malvado, o tarado do consultório. Um potencial estuprador de secretárias. Fiquei desesperado, com medo dela gritar, chamar a polícia, sei lá...

Na sessão seguinte não fui, nem na outra, nem na outra e estava decidido a nunca mais voltar, mas diante da insistência do analista, acabei aceitando a ideia do retorno, então levei flores e chocolate para pedir desculpas. A recepção estava vazia. Aguardei sentado na poltrona por tensos e intermináveis minutos o aparecimento da moça.

Ela então abriu a porta de acesso à área de serviço, viu as flores, olhou para os chocolates finos, aproximou-se, encaixou sua coxa direita entre minhas pernas, acariciou meu rosto e com olhar de fúria, perguntou - Por quê você foi embora e não quis mais voltar?

Olhei para o lado e vi a loira de seios fartos acenando um lacônico adeus...

É isto aí!   


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