sábado, 29 de novembro de 2014

Lua de mel

Acordei estranho naquele dia. Cabeça doendo, corpo todo dolorido, um gosto horrível na boca. Tive a impressão de que a cama estava diferente e ao tentar espreguiçar, deparei com um corpo feminino ao meu lado. Fui levantando quase escorregando, e já de pé puxei devagar a coberta. Uma moça abriu seus olhos e mirou nos meus. 

Ficamos assim alguns longos e irritantes segundos, um olhando nos olhos do outro, buscando entender o que estava acontecendo. Só então percebi que estava nu, e ao olhar em volta não vi minha roupa.

Voltei os olhos à moça procurando uma resposta e de repente minha memória denuncia que não estou no meu quarto. Comecei a ficar preocupado, pois não lembrava de ter saído de casa.

A porta abriu de súbito e uma mulher gorda elegante entrou em silêncio com uma bandeja cheia de frutas, pães, chá e café. Da forma que entrou, saiu, e quando voltei os olhos à cama, não havia mais ninguém lá. Procurei nos cantos, no chão, abri o guarda-roupa e nada. Enrolei no lençol e ao tocar a maçaneta descubro que a porta está trancada.

Com uma sonolência inexplicável, deito na espera de tudo ser parte de um sonho. Acordo com a mulher gorda elegante, nua, abraçada em mim. Tento levantar mas ela impede e experimentamos uma longa performance sexual. Ao fim, exausta, adormece e aí levantei rápido, fui direto à porta - estava aberta. Saí num corredor escuro, dando numa sala iluminada, exalando um fantástico cheiro de comida.

Com fome, aproximei e vi uma mesa repleta de uma saborosa ceia, e ao sentar um mordomo com vestes britânicas vitorianas, longilíneo, surgiu de algum lugar inesperado, e começou a servir-me em silêncio. Ao colocar o guardanapo sobre a perna, percebi que ainda estava nu, mas a fome foi maior que este detalhe. 

Ao término, aquela mocinha entrou na sala, vestida de um provocante tubinho preto, e com um sorriso enigmático sinalizou com o dedo indicador uma porta, à qual abri. Entrei e era um quarto onde estavam minhas roupas. Ela entrou atrás, passou por mim e abriu outra  porta, mostrando um banheiro. Daí, voltou-se, beijou-me em frenesi e mergulhamos numa inesquecível aventura carnal. Entrei para o banho e quando já estava pronto, a gorda elegante abriu a porta, e com o aceno chamou-me para sair. Levou-me até a saída daquela casa.

Ao perceber que estava na rua, fiz sinal para um táxi, para outro, para outro e já cansado daquilo, segui a pé até chegar em algum lugar que me desse referência de onde estava.Não havia ninguém na rua. Enquanto caminhava, um cadillac preto, de vidros escuros parou ao meu lado e a porta de trás abriu. Aceitei a carona, mas não consegui ver o motorista. Acho que cochilei, não sei, demorou muito até chegar na porta do meu prédio.

Desci e o carro arrancou depressa. Estava tudo normal, a rua, a portaria, as pessoas da área e até o seu Joaquim era real e entregou as correspondências normais. Em casa sempre é mais seguro, pensei, enquanto subia os doze andares pelo lento elevador. Vou dormir e amanhã penso nisto tudo.

Ao entrar no apartamento, a moça desconhecida estava sentada na minha poltrona preferida, ao lado do meu trompete, enrolada em uma toalha azul e outra nos cabelos, com um olhar perdido e uma garrafa de vinho vazia no parapeito da janela. Ao seu lado uma bolsa de viagem com indicativo que veio para ficar.

É isto aí!


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