terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A moça de azul

Estava passando pela região a serviço. E havia ali na praça um corre-corre de organização para a festa municipal. Não era uma festa qualquer, e sim "A Festa", esperada por todos no decorrer do ano. A rua da Matriz era toda enfeitada, as casas com toalhas bordadas nas janelas, todos com suas melhores roupas, e à noite a bandinha tocava uns hinos salvíficos e depois era carnaval até amanhecer o domingo.

Foi então que a conheci, quando por acaso passava pela barraca de doces. Estava linda, tinha um vestido com detalhes em azul, estilo meio antigo, rostinho de anjo, fala mansa, e descalça - uau. Foi um encantamento à primeira vista. Amanhecemos conversando sobre diversos assuntos, no banco da praça, comportados, enamorados e apaixonados. Despediu-se com um sorriso e desapareceu na neblina da alvorada.

Resolvi ficar na cidade mais uns dois dias para reencontrá-la. Acabei passando a semana ali. Ninguém sabia da moça, nem no hotel, nem no único restaurante, nem na igreja. Andei pelas poucas e estreitas ruas, perguntei aqui e ali e nada. Tinha que partir e prometi retornar em breve para, quem sabe, entender o que havia se passado. Enquanto arrumava a mala, conferi no bolso do paletó se havia alguma coisa e encontrei um perfumado lenço de linho branco, bordado, elegante, contendo duas iniciais em letra gótica - S e M.

Seis anos se passaram, e eis que retorno àquela cidadezinha. Confesso que já não lembrava mais do episódio. Neste tempo casei, tinha uma filha, e já havia sido promovido na empresa a gerente de área, e estava visitando os clientes preferenciais. Como as viagens eram de uma rotina massante, e os negócios eram feitos sob enorme pressão da empresa, não dava mesmo para ligar processos pessoais com as cidades.

Era uma terça-feira. No café da manhã sentou-se à minha frente, dividindo a mesa, uma moça linda, mas muito linda mesmo. Ali ficamos conversando, conversando e quando dei por conta, estávamos na praça, sentados no banco, e já era noite. Não vi o tempo passar. Começou uma forte tempestade, despediu-se com um sorriso e desapareceu rapidamente. 

Ao chegar na recepção do hotel, completamente molhado, o gerente olhou meio preocupado para mim e segui-se o estranho diálogo:

- O senhor melhorou?
- Melhorei do que?
- Hoje cedo o senhor esteve aqui na recepção e falou com o encarregado que não estava se sentindo bem, e que iria ficar deitado, e se alguém o procurasse era para deixar o recado que o senhor entraria em contato. Como não saiu do quarto até o presente momento, nem a camareira entrou para arrumá-lo a fim de não perturbar o seu descanso. E agora o senhor aparece aqui todo molhado, como se tivesse entrado debaixo do chuveiro. Está suando? O senhor veio de onde? Quer que eu o leve ao médico?
- Suor? Não, isto é da chuva. Eu estava bem aqui em frente, no banco da praça quando começou a tempestade.
- Chuva? Não cai uma gota aqui já fazem uns sessenta dias, e daqui vejo toda a praça e com certeza o senhor não esteve nela hoje. 
- Levei a mão no bolso de forma involuntária e deparei com o lenço, tal e qual seis anos atrás, aí não lembro de mais nada. Acordei no hospital, com minha família ao meu redor, uns três dias depois. 

Já se passaram trinta anos. Os lenços ainda exalam perfume, as iniciais ainda são uma incógnita. Nunca mais voltei lá na cidadezinha, nunca mais a vi sequer em sonhos. Mas hoje estava sentado na varanda depois da janta, pensando, contemplando o nada, o entardecer lento e foi aí que ela passou e sentou no balanço lá do quintal. Estava a mesma coisa, não mudou nada. Acenou para mim, eu acenei para ela e acho que foi um adeus com sabor de até breve.

É isto aí!

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