terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Lua Nova

A Noite estrelada - Van Gogh
A pilha do rádio acabou, e deu que esqueci de comprar outras e o do carro estava estragado há muitos meses, e éramos só nós dois em casa. Como ela dormia cedo, bastava esperar a hora para assistir a final do campeonato de futebol. 

Mas deu que naquele dia a patroa ficou rodeando, querendo uma sessão nostálgica de amor total e eu não estava muito animado em corresponder, até mesmo por que a Candinha do Adamastor já tinha partilhado das minhas vontades na tarde, quando dei uma volta rápida na rua para comprar uns troços aí, menos o raio das pilhas.

Aí, muito da pirracenta, ela provocou uma severa discussão pela escolha do canal. Eu queria o futebol, ela queria um destes filmes lacrimogêneos. Na impossibilidade de partir para um ataque frontal utilizando dos argumentos físicos, dado à incerteza do que poderia acontecer enquanto dormia, saí pela área externa em busca de ar e tranquilidade.

A noite estava linda - lua nova, outono, brisa fria, e bilhões de estrelas explodindo no céu. Deitei na rede instalada  confortavelmente de frente para a colina, enchi a cuia de cachaça da boa, acendi um cigarro de palha, que eu mesmo curti, piquei o fumo do rolo de reserva especial da venda do Tinoco, acendi num isqueiro Binga Vospic, herança do meu pai e fiquei ali, olhando a grandeza do mundo e pensando em quanto já estava o jogo, no corpinho da Candinha, nas seis vacas mojadas, nas outras seis que já tinham parido, e contemplava o silêncio, refletindo estas coisas que realmente valem a pena um homem pensar.

Ainda não havia tomado a cuia toda, e no movimento das sombras suspeitei de um vulto ao longe que com o tempo foi chegando pelo lado do curral, e o caso é que à medida que aproximava, percebi que era uma mocinha, de vestidinho de algodão branquinho, solto e curto, e de longe parecia que flutuava. Ela foi se aproximando bem devagar, feito uma onça no bote. Armei meu canivete e passei a acompanhar só com os olhos, pois sou caçador experiente, e foi então que reparei naquela formosura graciosa chegando bem de mansinho.

Mas aí deu que a danada chegou tão pertinho que ficou assim com as coxinhas grossinhas na altura da rede, meio espairecida, meio desconfiada e do nada foi aconchegando aquelas perninhas de flor de seda acolchoada de encontro aos calos da palma da minha mão.

Corri os olhos prá dentro de casa, tudo já apagado, então fui apalpando aquela formosurinha toda, ela foi se retorcendo feito gata no cio e aninhou na rede. Olha, vou dizer uma coisa, aquilo foi do outro mundo. Acordei com o dia claro, sol de nove horas no meio da mata, meio que confuso. Custei a levantar, e sem outro jeito fui andando para a casa, atirada uma meia hora dali. Achei esquisito, mas vai que a patroa resolveu vingar, não é mesmo? Pelo menos não cortou nada em mim. 

Cheguei em casa, tudo fechado e um bilhete na mesa dizendo que tinha ido na casa da mãe, aproveitando uma carona da irmã que passou cedinho e que voltava na semana seguinte. Deve ter pensado que estava no roçado.Tomei um banho, almocei e dei uma cochilada, pois estava bem cansado. De noitinha não é que a moça retornou, do mesmo jeitinho?

Desta vez acordei de madrugada no mesmo lugar. Que menina mais danada esta, pensei. Aí foi que resolvi fazer um negócio diferente. Passei a deixar no lugar uma bicicletinha velha que eu tinha guardado de muitos anos, que a patroa não ia dar falta, e um despertador. Olha, nunca mais perdi a hora de voltar prá casa nas noites de lua nova...

É isto aí!


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