segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Valei-me São Jorge

A Igreja católica nunca retirou São Jorge do seu calendário litúrgico. Do ponto de vista histórico-crítico, as fontes existentes são suficientes para corroborar a existência de um cristão chamado Jorge que morreu por causa da sua fé católica na Antigüidade cristã e outros testemunhos, embora reduzidos, nos dão a certeza de que ele existiu.

Em Lydda (Dióspole), perto de Tel Aviv, em Israel, venerava-se o sepulcro de São Jorge antes do séc. VI. No mesmo período, Antonino de Piacenza e Adam-nano atestam o mesmo. Os restos arqueológicos da basílica cemiterial ainda hoje visíveis são atribuídos a uma construção constantiniana, como quer que seja muito próxima da morte do mártir. Além disso, uma epígrafe grega, encontrada em Eaccaea de Batanea e datada do ano 368 por Delehaye, fala de uma “casa dos santos e triunfantes mártires Jorge e companheiros”. Não se sabe onde nasceu, mas segundo alguns teria sido na Capacódia (hoje Turquia), e teria vivido na Palestina como tribuno militar.

A respeito do ano do seu martírio, Ruinart o fixa no ano de 284, seguindo o Chronicon alexandrinum seu paschale (PG, XCVI. col. 680). Parece, porém, ser mais provável que se deu no ano de 303, durante a perseguição de Diocleciano. Logo em seguida, entre os séculos IV e V, o nome de São Jorge se difundiu rapidamente no Oriente, a ponto de ter sido usado por vários soberanos na Geórgia. Também no Ocidente o seu culto se espalhou, sendo testemunhado por volta de 527 em Roma, quando Belisário confiou à sua proteção a porta de São Sebastião. No séc. VI encontramos uma igreja dedicada a São Jorge em Jerusalém. São Gregório de Tours (+ 594), na obra Miracolorum liber recorda a transladação de suas relíquias a Limoges e a Le Mans. O Papa Zacarias (+ 752), de aprimorada formação intelectual, teria encontrado o seu crânio. Segundo alguns relatos, São Jorge teria sido decapitado após inúmeras torturas.

Os calendários litúrgicos orientais indicam a comemoração de São Jorge no dia 23 de abril. Na mesma data o celebra o Calendário marmóreo de Nápoles, Itália, do séc. IX, de influência bizantina, o que em geral foi seguido pelas igrejas no Ocidente. O Sacramentario Leoniano do séc. V contém os textos da Missa em honra a São Jorge mártir usadas na igreja de São Jorge in Velabro, Roma.

A prova de que São Jorge foi um personagem importante na história do Cristianismo se deve ao fato de que muitos quiseram, a seu modo, escrever-lhe uma pequena biografia, chamada de passio, onde história e lenda se misturam. Dentre as mais famosas está uma escrita em latim que serviu de base para o panegírico redigido por Santo André de Creta (séc. VIII) em homenagem a São Jorge. O já citado São Gregório de Tours e Venâncio Fortunato (+ ca. 600) também exaltaram a sua pessoa. Na Liturgia bizantina São Jorge é celebrado também a 3 de novembro, reconhecido junto com outros santos como “megalomártir” (grande mártir).

Um destes relatos medievais merece ser citado, mesmo que a crítica histórica hodierna o coloque em xeque. Com efeito, vendo os sofrimentos de São Jorge, a imperatriz Alexandra, mulher de Daciano (Diocleciano), se converteu ao cristianismo e por isso também foi condenada à morte. Ela não havia ainda recebido o Batismo, e se perturbou com isso; São Jorge, porém, a teria consolado com estas palavras: “O teu sangue derramado será para ti batismo e coroa”.

Curiosamente, na tradição islâmica São Jorge recebe o título de “profeta”, e o relato dos seus gestos, a partir de Wahb ibn Munabbih (+ ca. 728-33), reproduz quase literalmente a versão siríaca da redação mais antiga de uma de suas lendas, acrescentando-lhe, porém, a devoção à luta contra o dragão em Lydda ou Beryto.

A propósito, a iconografia do santo o representa, a partir do século X no oriente cristão, como um jovem sem barba e sem algum atributo especial, acompanhado geralmente de São Demétrio. Com o passar do tempo, torna-se cada vez mais frequente sua representação com uma couraça e com marcada caracterização heróica. É no ocidente europeu, a partir do século XII, que vem apresentado a cavalo, no ato de matar um dragão. Tal modelo é seguido particularmente pela arte gótica tardia na França e Alemanha, bem como pelo Renascimento italiano. Exceções houve, como é o caso da belíssima estátua de São Jorge sobre a fachada de Orsammichele em Florença, Itália, obra do artista italiano Donatello (1415-1417).

Em uma das mais furiosas batalhas na Terra Santa, no ano de 1089, os combatentes cristãos (os cruzados, unidos aos ingleses e genoveses) teriam sido ajudados por São Jorge, acompanhado por esplêndidas criaturas celestes que traziam numerosas bandeiras nas quais tremulava a cruz vermelha sob fundo branco, símbolo já conhecido dos genoveses.

São Jorge, além de ter dado o seu nome a cidades e a países, foi proclamado Padroeiro de cidades como Gênova, Moscou, de inteiras regiões espanholas, de Portugal, da Catalunha, da Geórgia, da Lituânia, da Hungria, da antiga Checoslováquia e da Inglaterra, sendo esta última com a solene confirmação do Papa Bento XIV. Em 1415, o arcebispo inglês Chichele introduziu a festa de São Jorge entre aquelas mais solenes do ano. Entre os seus mais famosos devotos, está o Rei Ricardo “Coração de Leão”, que chegou a “nomear” São Jorge o comandante de uma expedição cruzada!

Mais de 20 cidades na Itália recebem o seu nome. Em Ferrara se encontra a Catedral de São Jorge, consagrada em 1135. No Egito há mais de 40 igrejas a ele dedicadas.

Na hagiografia recente existe um curioso relato. Rafqa Pietra Choboq Ar-Rayès (1832-1914) teve uma visão de São Jorge, São Simão o Estilita e Santo Antônio Abade em um momento de crise vocacional. Por causa desta visão ela ingressa na Ordem das Monjas Libanesas Maronitas no mesmo ano (1871). Foi beatificada por João Paulo II a 17/11/1985 e no Jubileu do ano 2000 foi indicada como modelo de amor à Eucaristia.
Concluindo, é bom citar o Martirológio Romano, onde se lê: “Memória de São Jorge, mártir, cuja gloriosa batalha, celebrada em Diáspole (Lidda) na Palestina, é celebrada desde a antigüidade por todas as Igrejas, do Oriente ao Ocidente”. Pouco sabemos de São Jorge, mas o que sabemos é suficiente: existiu de fato, acolheu Jesus, morreu na graça divina! Que os cristãos, portanto, invoquem com confiança a sua intercessão na luta contra as forças do mal!                                                                                                                                                           

S. Jorge, Mártir de Cristo: rogai por nós!

APOLITIKION (4º TOM)

Vitorioso Jorge, ilustre entre os mártires,
libertador dos cativos, protetor dos pobres,
médico dos doentes e defensor dos governantes;
intercede a Cristo Deus pela salvação de nossas almas!

OUTRO APOLITIKION

Pela fé, combateste o bom combate,
ó lutador pela causa de Cristo,
e por ela desprezaste a impiedade dos perseguidores.
Oferecido a Deus como oblação agradável,
ganhaste a coroa da vitória.
Por tuas orações, ó São Jorge,
alcancemos todos o perdão das nossas culpas.

KONDAKION

Cultivado por Deus
te tornaste um excelente cultor da piedade
e colheste para ti as espigas das virtudes;
semeando com lágrimas, colheste com alegria;
e lutando até o sangue, ganhaste Cristo.
Por tuas orações, ó São Jorge,
que possamos alcançar o perdão de nossas culpas.

PROKIMENON

Alegra-se o justo no Senhor e n'Ele confia.
Ouve, ó Deus, a minha voz quando te rogo!

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