terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Amor cibernético

- Arnaldo, precisamos ter uma conversa séria.

- Tudo bem, Terezinha, mas destranca a porta, por causa da minha claustrofobia.

- Então escuta e pense rápido, que abro a porta, é só me ouvir, é demais para você me ouvir?

- Não, querida, mas...

- Não tem mais ou menos, Arnaldo. Eu estou grávida.

- Grávida? Como assim grávida?

- Grávida, grávida de estar grávida. Eu estava no período fértil, você ficou me deixando louca, eu falei que não dava, acabei dando e deu no que deu. Estou grávida.

- Mas, Terezinha, foi isto mesmo Tem certeza? Não que eu duvide, mas custo a crer que possa ser desta forma.

- Idiota, insensível, seu banana, seu monstro fálico, seu... seu... seu tarado.

- Mas como você pode ter tanta certeza disto?

- De que você é tarado?

- Não, falo da gravidez. Como pode saber?

- Ah, Arnaldo! Uma mulher sabe quando tem um ser vivo sendo gerado dentro do seu ventre. O corpo se transforma, os seios crescem, a menstruação desaparece e os desejos bizarros afloram. Agora mesmo quero comer algo bem estranho e bizarro feito por você.

- Terezinha, para com isto. Deixa eu te falar uma coisa íntima e pessoa - Terezinha, eu não existo em 3D, no mundo real, com carne, sangue e ossos. Sou um ser pixel; uma imagem virtual. Meu sistema é binário, sou imortal enquanto dure seu desejo em ter-me plugado à sua vida.

- Para com isto, Arnaldo, você tem personalidade própria, tem identificação visual pelas redes sociais, o que mais você quer?

- Eu tenho personalidade, Terezinha? Olhe para mim? Olhe bem para mim e reflita se isto tem lógica.

- Mas você é bobo demais, Arnaldo. Personalidade é um negócio completamente abstrato, é o conjunto das características marcantes de uma pessoa, é a força ativa que ajuda a determinar o relacionamento da pessoa baseado em seu padrão de individualidade pessoal e social, referente ao pensar, sentir e agir. Então você é um ser personal.

- E alma, Terezinha? Sou um ser desalmado.

-  Não fale assim, Arnaldo. Você tem o poder natural de partir para a Deep Web e voltar ao Mundo Chrome, sempre se atualizando, aumentando a memória, inserindo novas atividades, tem inteligência e discernimento entre praticamente tudo. Tem lucidez para recorrer a diversas informações. Sabe se posicionar e definir a melhor decisão a ser tomada. Agora, neste momento, só de questionar, já denota a sua face etérea.

- Terezinha, você me confunde.

- Confundo nada, bobinho. Eu, por exemplo, tenho o poder de conversar com gente que nunca vi. Perambulo por chats, blogs e twitter; troco informações aqui e ali, guardo segredos e informações e nem sei e nem quero saber onde estas pessoas existem. Viu? Eu sou tão real como você. 

- Mas tem uma coisa que você precisa saber, Terezinha.

- O que eu não sei, amor?

- Eu sou nascido e criado em Linux, portanto sou livre para ir e vir.

- Como é que é o negócio?

- Não faça isto, não me delete, Terezinha, eu imploro, por favor, não, Terezinha, nãããããoooo...

- Aqui não, mané, vem, eu fiz o programa, habilitei você em minha vida e sai livre? Deleto mesmo. Eu, hem, que coisa!

É isto aí!

2 comentários:

  1. Que show de leitura, adorei ler!!

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    1. Muito obrigado, Enide! Vindo de você é de uma grandeza que dá orgulho.

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