sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Seu Juca no Divã da Pitangueira

Bem, Seu Juca, podemos iniciar nossa conversa pelo motivo da sua vinda à clínica. 

Olha doutor, na realidade não sei bem por que estou aqui. Foi a Carlotinha que ficou martelando na minha cabeça o tempo todo da necessidade de procurá-lo.

Hummm, entendo. E Carlotinha é a sua esposa?

Nããããõ, longe disto, ela é uma mocinha que aprecio por aí.

Aprecia... pode explicar para mim esta sua relação com a Carlotinha?

Éééé´... olha só, tenho mesmo que falar sobre isto?

Não necessariamente, poderemos voltar ao assunto depois. Mas ela veio com o senhor?

Ficou maluco? Carlotinha aqui? Nem morto. O lugar dela é onde ela está.

Entendo, mas volto a perguntar - por que ela o enviou à clínica?

São as coxas, doutor, as coxas. Eu sou tarado por coxas de mulher. Sabe aquelas coxas nuas que perambulam sob um corpo esguio por estes dias de verão? Aquelas coxas carnudas, lisas e gostosas das mulheres quando o calor aumenta e as roupas diminuem? Então, é isto. Eu sou tarado por elas. Tenho vontade de sair alisando, apalpando, agarrando, mordendo, beijando, lambendo e esfregando minhas mãos em todas elas. É um negócio que mexe comigo, sabe, uma loucura dentro de mim.

E daí, o senhor chega a abordar estas moças?

Não, isto não. Mas eu fico nervoso, minhas mãos suam, e, sabe - como vou falar... olha só, de homem para homem, aquilo me excita. Excita muito mesmo. Fico doido.

Seu Juca, o senhor é casado?

Sim, claro, 25 anos de casado e bem casado.

A sua esposa, o que ela pensa disto?

Mas o que é isto, doutor? Ficou maluco?Acha que vou contar uma coisa destas para ela? Ela já está bem velha, tem quarenta e tantos anos, não tem nem interesse nem necessidade em saber disto.

Mas e a Carlotinha?

Pois é, então, a Carlotinha eu apanhei na roça e trouxe a princípio para morar lá em casa, mas ela é uma delícia. Tem umas coxas... hummm... até babo só de falar. Aí eu comecei a sentir estas coisas, sabe, foi com ela. Aquelas roupinhas curtas, aquelas coxas, nossa, puxa vida, que par de coxas, eu não aguentava mais.

Mas o senhor...

Não, eu sou um homem sério, nunca pensei em trair minha esposa dentro de casa, mas aquilo estava mais forte que eu. Olha só, doutor, estou jovem, só com quarenta e poucos anos, sei que não pareço ter tudo isto, tenho a força plena e cultivo a minha capacidade mental em plena carga. Mas aí, deixa eu falar, mas aí... é... então, deu que eu precisava resolver aquilo, daí arranjei uma quitinete para ela morar e onde a gente podia passar uns tempos, longe dos curiosos.

E ela? Como aceitou isto?

Ela, a Carlotinha? Adorou. Sabe, eu gosto de ver suas coxas, deliro. Ela coloca saias curtas, vestidos - uau, os vestidos da Carlotinha, com as coxas à mostra e costas nuas. Puxa vida, eu fico alucinado. Entende, doutor, este é o meu estímulo visual, sem isto não tenho vontade.

Fale um pouco da sua infância e da sua mãe, Seu Juca, vamos dar um passeio na sua vida.

Minha mãe? Qual é a sua doutor? É tarado pela mãe dos outros agora, é? Bem que me falaram que o senhor era esquisitão, e eu não acreditei.

Não tem nada disto, Seu Juca. O senhor está aqui por um problema, e avançaremos no campo da análise para verificarmos se este problema é maior do que simplesmente a sua vontade apresenta.

Sim, mas o senhor colocou minha mãe, minha santa mãezinha na questão. Isto eu não admito. Eu não sou louco.

Eu não disse isto. Mas já que tocou no assunto, vamos supor uma pessoa que estivesse diante de uma loucura qualquer, um desejo alucinante ou um comportamento bizarro, então ela provavelmente teria apenas o sentido de falsificação violenta da realidade, de tentativa de tradução violenta, como uma identificação projetiva, que buscaria pôr sentido onde não há. O senhor entende?

Olha Doutor, isto não está certo. Primeiro me cobra para saber se gosto de mulher. Eu gosto, depois fica querendo saber como gosto, eu explico direitinho, direitinho, aí vem e fala da minha santa mãezinha, e depois isto - que eu sou doido.

Não tem nada disto, Seu Juca, é que em alguns casos o paciente pode ter criado uma ilha, que ele habita e preserva. Essa ilha, Seu Juca, é, talvez, a projeção, não no sentido imagético-geométrico, da relação com sua mãe.

É a merda daquela vaca que te largou no pasto, doutor. Vai pro inferno, vai se tratar desta tara pela mãe dos outros, por que eu vou atrás das minhas coxas.

Semana que vem no mesmo horário, Seu Juca?

Sim, pode manter este horário mesmo.

É isto aí!


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