sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Uma aula de infidelidade

Ontem foi dia de faxina aqui em casa e olhando a faxineira que a esposa arranjou, bateu saudade do tempo que, solteiro, morava sozinho. Assim que formei vim morar no Rio de Janeiro, e não parava em casa. Sempre viajando a trabalho, e nas folgas saia do tumulto da cidade. 

Como o apartamento era um caos, pedi a ajuda de uma colega do escritório que indicou a sua faxineira. Disse que era de extrema confiança e que eu podia contar com ela. Liguei e combinei o preço e o dia que fixou para as quintas-feiras. A chave que iria ficar com ela deixei na recepção, e o pagamento estaria em cima da mesa da sala. 

Acho que demorei uns dois meses para conhecê-la, e foi num dia de folga compulsória, quando torci o pé num jogo de futebol na praia. Foi então que vi a moça que deixava meu apartamento com cheiro de limpeza. Chamava-se Maria Helena, mas preferia o apelido de Leninha. A primeira impressão foi que era uma mulher comum. Morena, com cabelos castanhos lisos, feições finas, nariz pequeno e lábios grossos. A pele queimada de sol e corpo normal, sem peitos grandes ou coxas destas gostosonas. 

Na época eu tinha vinte e cinco anos  e ela uns 35/36, portanto era muito velha para meus padrões. Além disto era séria, conversava pouco e trabalhava dentro de um vitoriano uniforme preto. Acontece que algo me deixou atraído e não sei explicar exatamente o que. Eu, engenheiro de uma multinacional, cidadão do mundo, solteiro, cheio de mulher, sentado ali achando graça e charme naquela coroa. Mas deu que fiquei aquelas duas semanas de molho, de maneira que a cobiça cresceu. Daí, quando não estava viajando, passei a chegar em casa às quintas-feiras mais cedo. 

Já haviam se passado uns três meses e nada de diferente acontecia. Ela ficava limpando e arrumando e eu ficava ali observando. Numa destas quinta-feiras, no início de dezembro, estava na sala fingindo ler um documento e admirando o meu objeto de desejo, enquanto ela terminava o trabalho. 

Estava tão absorto despindo-a em minha mente que ela perguntou, sem parar com o serviço: 

- O que foi Dr. Jair, está tudo bem? O senhor parece distante.

- Sim está. É... (aí falei sem pensar e quando vi, já tinha falado) Eu estava pensando como o seu marido é um cara de sorte...

- Sorte? Como assim?

- Por ter casado com uma mulher tão trabalhadeira, educada, maravilhosa. Ele deve se fartar com seu delicioso corpo delgado.

- Que isso Dr. Jair? Me respeite viu, pois sou mulher casada. Eu tenho estudo de segundo grau completo e, além disso, meu marido não é homem de querer ficar se fartando assim não. Ele é um homem de igreja, sério igual eu mesma. Aliás, nem ele e nem ninguém nasceu para se fartar em mim.

- Olha, Leninha, desculpe, foi mal. É que vejo tantas qualidades em você que precipitei com as palavras.

- Não tem problema nenhum não. Na verdade ele, eu, a gente nunca tentou se fartar assim, igual eles falam, né? E eu também não sei se ia deixar...

- Como assim não sabe? Então você não tem certeza se quer ou não tentar?

- Pois é, deve ser pecado, não sei, talvez seja bom e não seja pecado, pode ser doloroso, sei lá. Não sei, Dr. Jair.

- Aí a conversa foi rendendo, ela achou graça disto, riu daquilo, ficou séria algumas vezes e foi na cozinha. Fui atrás, segurei-a pela cintura e dei um beijo molhado no seu pescoço.

- Que é isso, Dr. Jair? Ai que vergonha...Sou casada... O que o senhor pretende fazer? E chorou muito.

- Não era a reação que eu esperava. Pedi desculpas, que isso não iria acontecer novamente, e se ela não quisesse mais trabalhar para mim, eu iria entender. Respondeu que iria pensar. Não nos falamos mais nesse dia. Fui para meu quarto e ela foi embora.

Na semana seguinte não voltou. Apareceu na outra semana e não tocamos mais no assunto. Continuou trabalhando normalmente. Em fevereiro, véspera do carnaval, cheguei mais cedo e achei que ela estava sexy. Sentei para assistir Tv enquanto limpava os móveis, quando ela rompeu o silêncio.

- Dr. Jair, o senhor lembra daquele assunto?

- Assunto? Qual? Sobre aumento?

- Não doutor, aquele quando o senhor perguntou se meu marido se fartava de mim.

- Sim, eu lembro. Fui mal, ofendi a sua dignidade e com certeza você ainda está aborrecida comigo, e eu entendo isto.

- Tem nada disto, Dr. Jair. No dia eu fiquei com raiva mesmo, fui prá casa chorando, pensei em não querer voltar mais, mas fiquei pensando umas coisas esquisitas depois daquilo tudo, e  acabei refletindo que a gente acaba até ficando vaidosa por ser desejada por uma pessoa tão distinta como o senhor, e fiquei meio curiosa.

- Com o que?

- O tal de se fartar na cama. Então como pode o senhor dizer que dá prazer? Minha irmã diz que pode ser que ocorram coisas que fazem machucar a gente e doer muito...

Leninha, tudo é permitido se for conversado e consentido. Um casal deve se entregar totalmente, desde que seja de comum acordo, e daí deste acordo surgirão meios para que a dor não seja um empecilho para o prazer. Mas se a sua irmã for solteira e bonita igual você, me apresenta ela, quem sabe ela gosta?

- Vê se tem graça nisso...chamar minha irmã para se fartar para o senhor. Que ideia mais boba.

- Mas se você nunca sentiu vontade de experimentar, ela iria provar e te falar se foi bom com ela...

- Para falar a verdade, a gente acaba ficando curiosa... Mas tenho medo... Eu conversei demais com meu marido e aí, com muito custo, resolvemos alugar um filme erótico e assim que começou a ter aquelas cenas bizarras, sabe, eu perguntei se ele já tinha feito aquilo e ele disse que não, pois achava sujo, pecaminoso e mais um tanto de coisa, daí desligou o aparelho e saiu esbravejando comigo. Daí que assisti sozinha e escondida dele.

- Olha, Leninha, se ele pensa assim, deve respeitar, é um direito dele.

- Sei não... eu tenho uma amiga que sempre foi meio doidinha, sabe, diz que tudo é bom igual nos filmes e eu até que gostei de umas coisas e desgostei de outras...

- Já te falei, tudo é bom se for conversado e combinado. Se você experimentar, pode gostar ou odiar, pois isto vai do casal e do momento.

- Mas meu marido nem quer tentar, e falou que mulher que pensa isto é mulher do diabo.

- Bem... Assim fica mais difícil, mas se você quiser tentar, e achar que mereço a sua confiança...

- Nem pensar, Dr. Jair... Sou casada, amo meu marido e não quero traí-lo.

- Mas isso não seria uma traição. Seria apenas uma aula...

- Uma aula? Sei não. Pode até ser uma aula, mas acho que continua sendo uma traição, isso sim...

- Não seja boba. Para ser traição você teria que estar me desejando, mas isso não está ocorrendo. Você não está apenas curiosa em conhecer a sensação de se fartar de sexo, que seu marido lhe está negando?

- Bem, lá isso é verdade. Estou morrendo de curiosidade, mas não acho certo.

- Façamos o seguinte, você vai para casa, tenta outra vez com o seu marido. Se não conseguir que ele te atenda o pedido, você decide se vai querer a aula ou não. Eu só quero ajudar, nada mais que isto.

- Não sei não, Dr. Jair, eu vou fazer a parte de insistir com ele, mas daí a querer sua ajuda com aula, isso é impossível. Quero mais é ouvir seus conselhos de como convencer meu marido a querer se fartar de mim.

Aquela resposta já me deu quase a certeza que ia me dar bem. Ela falou de um jeito tão gostoso, que a vontade já era de voar no seu pescoço e partir para a tara. Agora é esperar, pensei, por que Leninha é minha e boi nem marido lambe, e este é que não lambe mesmo...

Deu que viajei a negócios e aquelas duas semanas passaram lentamente. Estava tão ansioso para chegar em casa e saber o que aconteceu com ela, que quase esqueci dos relatórios para meu chefe. Cheguei logo depois do almoço, e ela abriu um largo sorriso para mim, em cima da escada, limpando a estante de livros, usando uma camisa de malha e uma bermuda de lycra, curta e agarradinha.

- Boa tarde, Dr. Jair. Estava tão distraída que não ouvi o senhor abrir a porta. Não o estava esperando para essa semana. A Dona Flavinha, que trabalha com o senhor, me disse que só retornaria na semana que vem.

- É, eu estava em viagem ao exterior e consegui resolver tudo, além de ganhar uma folga - falei sem tirar os olhos nos seus olhos que estavam presos aos meus.

Desceu calmamente a escada em direção à cozinha, e o leve balançar do seu corpinho indicava que não havia nada sob a camisa. Resolvi tomar uma chuveirada fria para não cometer o mesmo erro de atacar sem saber a resposta. Voltei para sala, coloquei gelo em dois copos, cobri com whisky e entreguei um para ela. Aceitou, e os olhos continuavam vidrados um no outro.

- E ai, Leninha, como foi com o seu marido? Ele atendeu ao seu pedido?

- Não, Dr. Jair e ainda por cima, disse que aquilo que eu estava querendo não era coisa de mulher decente. Era coisa de mulher da vida, e que se eu continuasse com estas ideias ia separar de mim. Acontece que gosto dele, é um bom marido, bom pai, homem honesto, mas para se fartar não se presta ao querer.

Falou  com raiva, e me senti culpado por ter promovido aquela situação.

- A questão é o respeito, Leninha, e você o respeita muito e isto é importante, mas por outro lado, um casal se fartar de sexo não é nada do outro mundo. Neste ponto ele deveria buscar te entender melhor. É uma pena, mas por aí você não vai matar sua curiosidade. 

- Pois é, Dr. Jair, eu pensei isso mesmo...não é justo. Que custava ele me atender. Então, eu pensei em aceitar aquela aula que o senhor me ofereceu, se a oferta estiver de pé.

- Claro que ela estava tremendo feito uma vara verde, segurando o copo com dificuldade e já tragando o final da dose, logo ela que nunca havia bebido. Foi bom que relaxou logo, sem ficar bêbada, por que eu não queria precipitar nem mesmo me aproveitar da sua condição alcoólica.

- Você tem certeza de que é isto que quer, Leninha?

- Eu ficaria grata, mas... jura que não vai me machucar?

- Tem a minha palavra!

- Então me dê a aula, mas só um pouquinho para eu experimentar e matar a curiosidade.

- Certo.

- Então vou tratar minha Leninha com muito carinho.

Levantei-me e fui em sua direção. Ajoelhei-me, segurei a sua mão, e a beijei sem pressa. Levei-a no colo para o quarto, a despi lentamente. Ficamos ali, juntos e emocionados, aguardando a alegria explodir, e nos beijando como dois eternos namorados. Ao fim daquela tarde, entre carinhos que nunca tinham fim, agradeceu-me com uma candura que nunca esperei encontrar numa mulher.

- Obrigada por me deixar fazer do meu jeito, sem me forçar a nada. Foi do jeito que sempre imaginei, mas que nunca consegui e isto me fez tão bem que achei que estava no céu. 

Depois daquela tarde, viciamos um no outro. As quintas-feiras se estendiam pela noite e um táxi a levava para casa. Viciou em mim, pensava e eu viciei nela... Minha culpa.

E assim foi durante dois anos. Naquela tarde, depois de promovermos uma fusão completa e inesquecível de corpos ardentes, perguntou-me o que me afligia. Olhei nos seus olhos, acariciando seu rosto e respondi:

- Leninha, eu vou casar.

- Casar? Como assim, casar?

- Casar casando. Você não é casada? Então eu também irei casar.

- Chorou como o fez na primeira vez que investi sobre seu corpo. Mas é diferente. Eu sei dividir e distinguir vocês dois, eu amo meu marido e adoro fazer tudo com você, mas você nunca mais será o mesmo comigo. Não quero ser só a sua amante.

- Então larga tudo e vem morar comigo, Leninha. Casa comigo?

- Ficou maluco? Você acha que quero virar mulher falada na minha comunidade, na minha igreja? E as minhas filhas? Que exemplo de mãe eu seria para elas? Não quero isto para mim. Quero você, mas sem acessórios. Levantou-se e partiu.

Não vi Leninha depois disto, nunca mais me procurou nem eu telefonei. Já se passaram uns quinze meses desde aquela tarde. Como ia dizendo no começo, ontem foi dia de faxina aqui em casa. Hoje cheguei do serviço e dou de cara com Leninha conversando com minha esposa na cozinha. 

- Amor, esta será nossa nova faxineira, Dona Maria Helena. Foi recomendada pela Flavinha que trabalha com você, já que a outra pediu conta por que disse que ia mudar de cidade para casar.


- Olhei meio sem querer olhar - muito prazer Dona Maria Helena.


- O prazer será meu, Doutor. O prazer será meu...


É isto aí!





Nenhum comentário:

Postar um comentário