domingo, 22 de fevereiro de 2015

O estranho destino de Herculano Souza

Sei que faz parte do processo evolutivo vital que as pessoas se conheçam, namorem, casem, enfim, estabeleçam relacionamentos amorosos. No entanto, entre duas pessoas que se relacionam, existe um sistema de valores e uma cultura própria que cada indivíduo, traz consigo de sua família. 

Sendo assim, o irmão passa a ser cunhado, o pai passa a ser sogro e a mãe, sogra. Nessa multiplicidade de papéis e funções, a sogra é um personagem que carrega um estereótipo de múltiplas conotações que, geralmente, suscita piadas, brincadeiras, gozações e comentários jocosos, ou então pode ser o seu destino.

Minha vida sempre foi muito simples. Saí de casa aos quinze anos e vim para a capital, onde trabalho desde novo, sempre estudando à noite, e morando em pensões baratas. Formei em Contabilidade e fui trabalhar num escritório no centro, onde estou até hoje, acomodado e sem maiores pretensões. Moro na periferia, não tenho carro e nem filhos; nos finais de semana jogo bola, saio com os amigos, e na segunda-feira a rotina normal.

Tudo ia bem até que Flávia Renata passou a frequentar o ambiente com a escrita da empresa a qual trabalhava. Loira, linda, alta, desinibida e sedutora. Foi tensão emocional à primeira vista. Quando não deu mais para desfaçarmos o desejo comum, abriram-se as portas da comunhão total. O problema é que durante os últimos dez anos mantinha uma discreta e intensa relação com Maria Eulália, a minha Lalá, uma gorda elegante, de carícias inestimáveis, professora com alto nível intelectual, que conheci num evento da faculdade. 

Com as duas, de uma vida simples, de certo modo monogâmica, passei a desfrutar das emoções da poligamia romântica, uma nova e uma madura, uma loira e uma morena, uma culta e a outra superficial, uma ópera e a outra axé. 

Meses de relacionamento alucinante, num momento de fraqueza onde cheguei a me permitir casado, aceitei o convite da Flavinha para conhecer sua família. Comprei um terno bonito, sapato lustroso, rosas à mão, fui ao encontro do meu destino. Recebeu-me com a euforia e excitação de sempre, levou-me à sala onde estava a sua mãe, uma viúva feliz como a definia. A sogra era Lalá. Fui fuzilado com os olhos e tratado em atmosfera de nitrogênio líquido, bem abaixo de 0º.

Rompi com Flavinha no dia seguinte sem satisfações, e fui abandonado pela sogra sem adeus. Mudei a rotina para evitar confrontos e desencontros, passando a frequentar outros ambientes, desta vez clubes de Jazz. Ali conheci Martha Creuza, uma menina normal, de hábitos normais, vida normal, solteira, sem vícios e nos demos um ao outro. Meses de relacionamento clássico,  em um momento de fraqueza onde novamente cheguei a me permitir casado, aceitei o convite para conhecer sua família. 

Com o mesmo terno, o mesmo sapato lustroso e com chocolate fino à mão, parti ao encontro do meu destino. Recebeu-me com a tranquilidade e educação de sempre, levou-me à sala onde estavam os familiares. E não é que era o novo endereço da Lalá? Havia mudado logo depois do encontro por temer consequências que nunca imaginei praticá-las.

Rompi com Martha Creuza, que virou missionária evangélica na África. Flávia Renata mudou-se para São Paulo para trabalhar com Moda e Lalá, ai-ai como resistir àquela tentação fazendo  uma coreografia exclusiva de dança do ventre para mim? 

É isto aí!

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