terça-feira, 24 de março de 2015

Nunca deseje seu ex-amor

Tem uns dois anos, estava à toa, procurando alguma coisa na Internet, e isto é um perigo tão grande, que tal aventura deveria ser protocolada, registrada, carimbada e monitorada por uma agência federal. Era cedo ainda, as crianças já haviam deitado, a sogra roncava no sofá de frente para uma novela desconhecida, e eu esperando a hora do jogo, que seria o ponto culminante da noite.

Foi aí que a porca torceu o rabo e o diabo cutucou com a saudade, quando bateu a besteira de procurar o nome dela na rede. "Ela" foi simplesmente o grande e intempestivo amor, daqueles que só quem amou apaixonadamente irá entender. Quinze anos se passaram desde a maldita despedida, onde meu orgulho, idiota, não entendeu a gravidade da separação e o que esta dor ocasionaria na minha vida.

Como sabe, a fila anda, e acho que foi então que apareceu a Geraldinha, que assumiu o controle da situação, e hoje moramos numa casa pobre, mas é nossa, está paga e é decente. Os filhos na escola pública, eu na prefeitura e ela uma doce, dedicada e romântica rainha do lar. Mas naquela noite eu cometi a imprudência de procurar por "ela". Puxa vida, quanto mais passava o tempo, mais torturas e sofrimentos fluíam pela memória.

Achei-a na rede, acessei sua página, e meu Deus do céu, estava linda, com fotos deslumbrantes em lugares fantásticos, cercada de amigos, amigas, com a cara da riqueza e a sina da beleza. Era ela, a minha musa, que venceu, brilhou, ascendeu, enfim, conquistou seu lugar ao sol merecidamente. Levantei da cadeira ensandecido. Entrei no quarto e vi aquela tripinha seca deitada na cama de colchão de espuma D28, cobrindo com lençol remendado ainda do casamento, duas muchibinhas de travesseiro sob um cortinado encardido, ventilador histérico, piso de cimento queimado e aí chorei copiosamente.

Entrei dezenas de dezenas de vezes naquela página, imprimi sua foto, caramba - estava tudo acontecendo novamente. A tentação de surgir na sua vida era imensa, mas me contive. Deu que um dia fui acompanhar o despejo de uma invasão de área pública, e não é que ela estava lá? Era uma das invasoras, menos bela que na Rede. Fui me aproximando devagar, bem devagar, tremendo até não aguentar mais. 

Olhamos um nos olhos do outro. Tomei-a pela mão e não soltei mais. Ela sonhava com coisas que eu renunciara, e agora poderíamos sonhar juntos. Tudo ia bem até que resolvi acessar a página da Geraldinha. Gente, mas o que era aquilo, parecia uma Miss Universo desfilando na passarela da felicidade. Minha boca encheu d'água... a Geraldinha... puta que o pariu, e eu aqui sustentando esta gorda porca e preguiçosa que fica o dia inteiro na internet. Fiz menção de voltar, mas sabe como é, ninguém volta ao que acabou - outro já dominava a área.

É isto aí!






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