domingo, 1 de março de 2015

O hiato passional


Estou consciente, mas não consigo ver nem falar nada. Acho que estou no hospital, pois lembro de estar em casa e tudo escureceu. Escuto vozes sussurradas e som de aparelhos médicos. Não tenho medo, nem sequer estou desesperado. Passei pela vida com méritos e vitórias.

E tem na memória uma moça que navega silenciosamente entre o real e o imaginário, acelera o passo e percorre com uma delicadeza inconfundível a borda externa da minha espaçonave neuro-sensorial. Não tenho dúvidas de que a conheço. É Stella, o grande amor da minha vida. Linda, tímida, meiga, inteligente e apaixonante.

Enamoramos na faculdade, impregnou-se na minha alma e por estas coisas inexplicáveis, perdemos um do outro no meio da multidão aflita pela vida adulta. Naquele dia a fitei nos olhos, triste, e ao largar minha mão, no meio da tempestade, gritou que me amava, e a turba do destino nos afastou. Casei, tive filhos e netos, venci a batalha e guardei o amor. Agora volta, com uma candura tão docemente saborosa que não me faz querer perde-la outra vez..

Sabe quando você sonha e depois deseja muito alguma e a alcança? Isto é fantástico, pois dá sentido à vida. Mas entre o ponto de partida e a conquista, milhões de coisas aconteceram, houve choros e lágrimas, sorrisos, gargalhadas, dores, frustrações, brigas, discussões, vitórias, derrotas, e tantos outros fatos que em determinados dias você até esquece daquele sentimento, que fica guardado em algum lugar da memória. Este espaço atemporal entre o desejo e a conquista é o hiato passional.

É ele, o hiato passional, é que dá o real sentido a tudo e o doce sabor da conquista. Agora ela está aqui, saiu de dentro de mim depois destes anos todos, de toda uma vida e transborda nos meus sonhos. Esta página se fecha aqui e agora se abre outra.

É isto aí!


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