terça-feira, 10 de março de 2015

Odete e a antítese nelsonrodrigueana

Tentei falar com Odete ontem, mas ela nunca está e nunca pode ser encontrada, pois segundo seus princípios, é ela a caçadora. Diz a lenda que de certa feita, um renomado psicanalista à margem do Paranoá tentou demovê-la deste sentimento e foi de tal maneira ineficaz que virou sua crença e seus instintos passando a se deixar seguir por Odete pelos labirintos de Brasília. Mas isto é outra história.

Nesta terça-feira, cinco horas da manhã, eis que meu analógico Nokia toca seu indefectível soar e pela janela de luz do compartimento de comunicação vejo reluzir o nome da minha deusa do planalto central.

- Odete, que surpresa agradável!

- Olá, amore, você me queria ontem e agora está surpreso?

- Não, é que ficamos tanto tempo sem contato, daí a saudade, e sobretudo a sua ausência em mim.

- Uau, adoro sua performance romântica.

- Mas, o que conta de Brasília, querida?

- Então, amore, como sabe minhas fontes são sempre fidedignas. Dia destes, em discreta garçoniére, acompanhada de pessoas da mais fina corte, escutei de Carminha, esposa de um valete do congresso, que atende um importante assessor de poderosa comissão, que  ouviu de uma eminência furta-cor destas que vagueiam na sombra, que nem toda nudez será castigada.

- Pelas barbas do profeta, Odete, isto é muito enigmático. Um drama de purificação nelsonrodrigueano às avessas seria a redenção da sociedade da casa grande, mas exigiria um auto-flagelo a que custo? E os antagonistas da cacica, parlatórios em estado bruto, movidos por um rancor desmedido e que arquitetam sua vingança? Como isto termina?

- Nossa, querido, como você é bobinho, enquanto os paneleiros de grife esperam que a hipocrisia dê uma trégua em suas vidas elitizadas, limpinhas e assépticas, seus modernos heróis de terninho siciliano vão entrando num jogo sem volta de pretensa dominação e humilhação. A questão é que, como foi escrito, verão que os filhos da mãe gentil não fogem à luta e que não são imbecilizados como querem fazer notar no jornal do bonder  

- Então quer dizer que o tio suquita do Leblon...

- Alto lá, querido, não falei nada, e aproveita que é baixa temporada e vem me ter em Brasília, amore...

- Humm, não sei, ir em Brasília, mas espera, acho que vou... alô.. alô... caramba, minha linha caiu feito promessa de oposição.

É isto aí!

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