quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Olhos de gata

A primeira vez que a vi, foi quando estava em completo estado de desespero, e, claro, desejando ardentemente uma fuga para algum lugar onde nem eu mesmo me conhecesse.  

Apenas dei uma discreta olhada e achei lindinha, gostosinha, mas foi só isto, eu acho, mas não sei, por que lembro dela ter me olhado n'alma, com aqueles olhos de gata, que em priscas eras condenavam feiticeiras ao fogo.

Passaram umas duas semanas, quase refeito das dores pela queda de um ex-grande amor, deparei com sua presença numa festa destas muito chatas, com música new age, garçonetes exóticas e painéis abstratos. Vi que suas orelhas de gata se movimentaram em minha direção, como que desejando ler meus pensamentos. Pensei cá comigo - é fria, sai fora. É só mais uma bruxa para te cozinhar no caldeirão. Mas ela tinha um ar tão cândido. Mas, como uma gata, desapareceu felinamente falando.

Deu que um mês depois, no teatro, tive a sensação de que era ela na primeira fila, mas como estava lá em cima, nas galerias, a penumbra, não sei, tive dúvidas, mas a sensação era tão nítida que resolvi que deveria ir ao seu encontro após o espetáculo. Perdi o interesse pela peça que me custou muito dinheiro, e agora nem assistia mais, só pensando no momento mágico. Cheguei a sentir seus lábios tocarem os meus, seu corpo vedando meus poros, enfim estava taradão. 

Quando encerrou o espetáculo e o povo foi se levantando, tive uma das ideias mais estúpidas da minha vida. De súbito dei um salto do alto da galeria  para uma poltrona já vazia da parte de baixo. Aqui cabe um adendo, pois achei que a distância era curta, e a maciez das poltronas absorveria o impacto, porém torci o tornozelo esquerdo e lesionei os ligamentos da mão direita e, manco, tentei atravessar o teatro no sentido contrário à multidão saindo, e vendo que esta tática não funcionava, fui pulando as poltronas até chegar à primeira fila. Não estava mais lá.

Adquiri um celular com câmara potente, zoom, etc e tal, fiz um curso de fotografia pelo Youtube,  e fiquei só ligado na possibilidade de revê-la. Um dia, numa quarta-feira, sete semanas depois do teatro, saindo do cinema, a vi. Ao longe, a reconheci pelo andar felino. Apressei o passo, fui aproximando, aproximando, aproximando, toquei no seu ombro nu, levemente e virou-se - olhou-me mais uma vez no fundo dos olhos, rodou uma bolsa de uns trinta quilos em direção ao meu rosto, e enquanto dobrava os joelhos por nocaute técnico, ouvi-a angelicalmente proferir as primeiras palavras à minha pessoa - seu velho tarado! 

É isto aí!

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