sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Tédios e taras

Renato Aurélio, preciso aproveitar esta fase na qual você está sóbrio e dizer que precisamos discutir nossa relação. - disse a jovem esposa ao cansado executivo recém-chegado de uma maratona de reuniões e assembleias na empresa. 

Acostumado a gerenciar conflitos na conturbada vida de negócios, sentou para experimentar aquela primeira convocação doméstica de disputa por espaço. Fala, Lili, o que a aflige, mas pode me chamar de Lelo, como sempre foi desde que nos conhecemos.

- Renato Aurélio...

Senta, Lili, sou todo ouvidos.

- Eu vou ficar em pé, não vê que estou nervosa? E fico como eu quiser ficar e te chamo pelo seu nome, afinal é este seu nome, não é? Re-na-to Au-ré-lio dos San-tos Pen-te-ado Gon-za-ga, e além disto, nunca me esquecerei que por causa do sobrenome da vaca da sua mãe, que você ficou exigindo que eu colocasse a merda do Penteado no meu nome e eu não aceitei, e desde então aquela vaca louca fica sempre falando que sou uma despenteadazinha.

Minha mãe é pauta desta conversa?

- Sua mãe não é pauta, sua mãe é um puta sem vergonha e sem caráter.

Muito bem, já definiu um processo, Vamos avançar e verificar as outras questões?

- A sua secretária. Ela se acha a ultima coca-cola do mundo, não é mesmo Renato Aurélio? Você não atende minhas ligações, daí ligo para a sua sala e aquela rapariga desqualificada, que deve dar para toda a diretoria, fala com aquela voz de traveco empanado - O Doutorrrr Rênáto não está - a senhora quer deixarrr um recado? Recado, Renato Aurélio? Recado? E eu sou lá mulher de recado?

- Bem, Lili, parece que estamos diante de idéias fixas, pré determinadas, imutáveis, que estão permitindo uma crescente tese de divergências, e com o agravante de que estes conflitos tendem a incomodar e à gerar tensão.

- Pode parar, Lelo, pode parar, eu não sou uma acionistazinha destas que você leva para jantar e depois vai fazer a digestão em motéis baratos. Eu sou sua esposa e não caio neste truque torpe de manipulação de processos para atenuar um conflito.

- Lili, o que mais tem para falar além das qualidades da minha mãe, das virtudes da minha secretária e do modus operandi com as acionistas da empresa?

- Eu poderia até falar da sua irmã, aquela vigarista que dá golpes baratos no comércio e nas instituições financeiras, mas ela está muito abaixo da minha percepção de crítica para servir como parâmetro. Também poderia dizer que encontrei na sua agenda o nome daquela delinquente que ousou pretender um dia estar no meu lugar, mas não falarei desta por que está gorda e desequilibrada mentalmente.

- Bem, Lili, pelo menos eliminamos dois pontos da pauta. Mais alguma coisa?

- Você, Renato Aurélio - você parou de beber. Agora só chega em casa bem cedo, sem cheiro de álcool, sem aquele ar nonsense, não fuma mais ... - quer saber? Você está muito estranho. Este é o ponto da nossa discussão. Você está sóbrio demais.

- Mas Lili?!?!?!?  Onde você quer chegar com isto?

- Ai, Lelo, é que quando você bebe você é tão taradinho, tão maluquinho, mas quando você está sóbrio você é tão.. tão.. chato, sem graça faz as coisas tão sem sal, fica muito entediante, digamos assim ...

É isto aí!




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