sábado, 6 de fevereiro de 2016

O Analista da Pitangueira e a Paft High Teck

Bom dia, Afonso!

Isto, doutor, mas pode me chamar de Afonsinho.

Bem, Afonso, sente-se. Aqui na sua ficha consta que você é casado, três filhos, profissional liberal. O que o trás aqui? e na última sessão você terminou falando que estava solteiro. Vamos começar de onde paramos?

Sou ex-casado.

Humm, então por que não alterou este dado na sua ficha? 

Bem doutor, eu tentarei explicar através de um fato que ocorreu comigo enquanto aguardava a consulta. Estava ainda há pouco lá fora, na ante-sala desta clínica. Éramos doze pessoas sentadas comportadamente e comodamente em poltronas confortáveis, ar refrigerado e ambiente agradável. Mas há algo que me incomodava profundamente naquele instante.

Eram mesmo doze pessoas?

Sim, já disse isto, mas entre estas uma era criança entre dois e três anos, e sem exceção, todos estavam calados. 

Calados? Como assim? 

Bem, desde a gostosa de vestido justo até o senhor impaciente ao meu lado, todos digitavam coisas na tela de seu smartphone. Somente eu e a criança sonolenta estávamos ali como num mundo distante.

Mas é provável que você tenha um celular, mesmo que seja simples, uma televisão de LCD/Plasma, cartão magnético de múltiplas atividades, carro com componentes eletrônicos e isto obrigatoriamente o inclui nesta comunidade.

Sim e não, talvez até uma coisa ou outra acusaria um delito de contato com a inteligência artificial, mas é o meu limite, e quando estou envolvido nestes processos, não faço disto uma relação asséptica. Eu tenho a necessidade de falar e escutar vozes humanas, doutor, eu tenho carência de humanidade, do exercício do olhar, do toque, dos sentimentos expressos nas palavras.

E isto te incomoda? Toda esta parafernália high-teck assusta, amedronta ou aterroriza você?  

Pois então ... é confuso estar inserido neste contexto, pois os amigos, meus amores e paixões que por aqui dentro do meu peito vadiam, não vadeam como aqueles lá fora. E tem sido assim com minha esposa. 

Deixa ver se estou entendendo ... tem lenço de papel sobre a mesa, ao lado do seu sofá, pode usá-lo. Não se preocupe, espero. Você gosta de ter alegria do contato humano consigo e contigo, por isto explanou com muita propriedade que as pessoas que ama podem e devem divertir-se e diverti-lo num motocontínuo. É isto?

Exatamente isto, doutor, eu tenho carência de vida. 

Mas então, segundo você, as pessoas estão preferindo, com suas próprias pernas, cruzar a vau para o lado das relações assépticas, sem respostas neuro sensoriais, sem carinho, sem açúcar e sem afeto, revisando a poesia do Chico para encaixar na sua dor.

Exatamente, doutor. É isto mesmo. E sofro muito por isto. Eu tenho cura doutor? tenho cura?

Veja, Afonso, Darwin nos trouxe à luz conceitos interessantes de preservação das espécias mediante adaptações, algumas pequenas, outras bizarras ... espera, o que está fazendo? Larga meu smartphone agora, Afonso, solta já meu aparelho, me da isto, solta logo, não, não , nããããoooo.

Olha, seu smartphone não tem chip ... hummm, então seu discurso é inútil ... hummm. Crashhhh!!!!

Seu, seu, seu cretino!

Na próxima semana, no mesmo horário, doutor?

Sim, mas meu Iphone será debitado no seu cartão de crédito.

Sem problema, mas lembre que ele não tem chip.

Não tem chip, não é? Paft ... não tem chip então ... paft

Que isto doutor, o senhor está me agredindo.

Paft ... não tem chip .. vai agora para a sala de pensamento e só saia de lá quando eu mandar .. paft ...

Não doeu ... não doeeeu ... não tem chip ... não tem chip ... não doeeeuuu!!!!

Paftt!

É isto aí!

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