segunda-feira, 14 de março de 2016

O que fazer depois de agarrar um bouquet de noiva

Saiu atrasado, como de costume, ainda mastigando o pão e ajeitando o paletó. No carro verificou se não esquecera nada, conferiu a carteira, os documentos, procurou num relance os óculos e deu um discreto sorriso ao descobri-los na face. Conferiu mais uma vez mentalmente se tudo estava em ordem, o gás desligado, as janelas fechadas, a comida e água do cachorro, e deu partida rumo ao ...

Espere, espere, gritou o seu Zezinho - passei no seu andar e volta lá, acho que esqueceu de fechar a torneira do banheiro. Ah! Fechei, claro que fechei. Sério? Lembra do mês passado? Tudo bem, vou verificar. Entrou na casa, foi direto à suíte e para sua surpresa a torneira estava de fato aberta. Fechou-a e seguiu para a cozinha onde percebeu que a janela estava aberta, bem como a geladeira e que o ferro ainda ligado por sobre a mesa.

Foi quando tropeçou no pequeno animal de estimação, que deveria estar na área de serviço. Esquecera de soltá-lo. Abriu a porta e mais uma vez certificou-se da água e da ração. Hummm - falta a água. Uma vez sanadas estas questões, passou a escutar um som de chiado vindo da sala. Caminhou lentamente e deu de cara com uma mulher lindíssima, semi-nua, deitada no sofá, com a televisão ligada ao dvd, num filme que provavelmente a fez dormir.

Desligou a TV e saiu pé-ante-pé, não sem antes fotografar a beldade. Passou o dia inteiro no escritório pensando naquela cena. Que mulher misteriosa seria aquela? Volta e meia observava as oito fotografias que tirou da musa da manhã. Não sabia nem por onde buscar aquela imagem na memória.

O relógio apontava para as vinte horas quando estacionou na apertada e esquinada vaga que detinha. Caminhou para a portaria e seu Zezinho fez sinal para que se aproximasse.

- Escuta Dr. Luiz, o senhor soube do arrombamento desta manhã?

- Arrombamento? Como assim? Onde? 

- No apartamento da dona Belinha, moradora novata do 703, e como o senhor mora no 803, talvez tenha escutado algo.

- Novata? Belinha? 703? Hoje?

- Sim, dr. Luiz, hoje.

- Não fiquei sabendo, mas de qualquer forma obrigado pela informação.

- No elevador deu aquele sorriso de alívio e sentiu o alívio de achar que tudo não passara de um mal entendido. Ao entrar no seu apartamento, percebeu que havia alguém lá dentro. Escaldado, volta e confere o número. Era de fato o 803. Vai entrando fazendo barulho e dá de cara com a vizinha maravilhosa do 703.

- Olá! Posso ajudar em alguma coisa?

- Bem, desculpe, você deve ser o Luiz, então ... eu posso explicar. Eu acordei com a sensação de que havia alguém na minha casa, e encontrei a minha porta aberta. Então percebi que havia um barulho de água com cheiro de pano queimando e corri por todas as torneiras e para minha surpresa as torneira estavam fechadas e não vi nada queimando. Seguindo o som e o cheiro, subi as escadas e deparei com esta sua porta aberta, onde percebi ser a origem do barulho no tanque da área de serviço, bem como a geladeira aberta e o ferro ainda ligado por sobre a mesa, sem falar na TV ligada.

- Puxa vida, muito obrigado, você evitou uma tragédia aqui hoje.

- É, parece que sim. Já que estava aqui, aproveitei e arrumei a sua cozinha, que estava muito, muito bagunçada, tudo engordurado, as coisas fora do lugar, produtos vencidos ...

- Sério? Você fez isto mesmo?

- Bem, aí resolvi dar uma olhada no seu quarto - santo deus, aquilo não via uma arrumação há uns bons anos. Então tomei a liberdade de organizar todo o seu quarto.

- Caramba, você é um anjo, uma fada ou algo equivalente?

- Nada disto, apenas achei que merecia. Percebi que é solteiro, apesar de ter uma vida sexual intensa dado ao número de preservativos no cesto do banheiro. E falando em cesto, lavei todas as roupas do cesto de roupas. Menino, tinha roupa ali que estava em estado crítico.

E assim foram felizes para sempre. É claro que o seu Zezinho da portaria ganhou um salário extra por ter trocado a identificação dos apartamentos e do elevador, mas isto é outra história.

É isto aí!




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