quinta-feira, 14 de abril de 2016

O homem nu da repartição.

Parlamento húngaro em Budapeste, às margens do Rio Danúbio
Saiu de casa apressado, atrasado, amargurado, entediado, desesperado, frustrado e triste, sobretudo triste. Naquela manhã desejou ansiosamente a morte. Mas de alguma forma havia o impulso de ir de encontro a algo novo, quem sabe a felicidade? Vinte minutos de caminhada e já adentrava no hall do edifício onde trabalhava e só aí se deu conta de que estava nu.

O engraçado é que ninguém parecia ligar para aquela situação. Subiu ao sétimo andar, entrou na repartição pública onde era lotado há vinte e seis anos. Nada, nem sequer um olhar diferente, uma palavra acerca de, enfim, percebeu-se um zero no meio da multidão.

Até aí tudo transcorria em quase normalidade, onde logo assegurou-se de que as coisas não poderiam ser tão ruins a ponto de piorar. Foi então que Merindinha, a mais gostosa das mais gostosas da área, parou em frente à mesa, olhou-o nos olhos e falou:

- Afonsinho, você está tão diferente. Está tudo bem com você? 
- Respondeu que sim. Tinha lá seus problemas, mas achava que poderia conviver com eles.
- Pode repetir sua resposta, por favor?
- Perfeitamente, Merindinha - estou bem, mas tenho alguns problemas que posso conviver com eles.

A moça deu um grito agudo e desvairado - gente - o Afonsinho está possuído.

Toda a repartição correu à mesa para ver, entender e participar da cena dantesca. Afonsinho, nu, sentado sem entender nada, olhava a todos com ânsia agravada por uma inevitável crise hipertensiva, com tremores e sudorese.

Lacerda quebrou o gelo do espanto e dirigiu-lhe a palavra:

- Diga, Afonsinho, tudo bem com você?

- Sim, quer dizer, eu acho, mas desculpem, eu sei que estou nu, mas como ...

- Puta que pariu, Afonsinho, vou chamar o SAMU agora, tem algo aí que está muito esquisito.

Nisto se aproxima da mesa um contribuinte cansado de esperar o atendimento. Olha bem nos olhos dele e trava um diálogo bem macabro aos ouvidos presente:

- Jó reggelt! Az én nevem Áder.  Segítség?

No que Afonsinho respondeu:

- Jól vagyok.

Então o homem de fala sinistra virou-se para a platéia de curiosos e falou com um sotaque desconcertante:

- Este homem é húngaro, e disse que está tudo bem com ele. Desta maneira não precisam se preocupar. 

Cada um voltou para seu lugar, uns achando engraçado, outros achando nada e Afonsinho ficou ali, sozinho, nu e sem a compreensão do mundo.

É isto aí!

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