terça-feira, 5 de abril de 2016

Odete, a fulaninha do Paranoá

Madrugada nestas montanhas geladas do interior caipira de Minas Gerais. Meu fiel Nokia agita seu estridente chamado. Penso nas crianças que já não são mais crianças e que residem na cidade grande, em algum parente, até que consigo achar os óculos e vejo Odete piscando seus olhos amendoados na tela azul do aparelho. Conta a lenda que de certa feita, um destas centenas de príncipes endinheirados pelo petróleo pediu Odete em casamento e a família vetou pelo olhar extremamente sedutor da moça, mas isto é outra história.

- Olá querido, te acordei?

- Odete!!!! Você nunca me acorda, pois você é meu sonho de consumo ...

- Hummm, atacadinho hoje, hem meu bem. Ainda é efeito do azulzinho? Brincadeirinha, sei que me ama.

- Você é tudo de bom, mas o que a faz ligar para mim?

- Desacuenda! Os Okó vai tudo sair do caminho da mona.

- Mas o que é isto Odete? Está incorporando entidade?

- Nada disto, amore, foi isto que ouvi da Aparecidinha. Lembra dela?

- Aparecidinha?? Não, assim de nome não.

- Humm, sei. Bloqueio, não é querido? Vou te dar duas dicas - Centro Comercial Gilberto Salomão e a Boate Kako, lá pelos anos 70.

- Caramba, Odete, que memória.

- Claro, não é amore? Você estava ao vivo e à cores nas vias de fato com aquela intrometida, e daí quando cheguei o sangue subiu e ...

- Claro, fomos todos para a delegacia, é que eu havia esquecido o nome dela.

- Mas eu não, viu amore. Euzinha não esqueço nada.

- Bem, agora que clareou a minha memória, o que tem a ver Aparecidinha e esta revelação meio quimbundo, meio yorubá?

- Sabia que meu nego ia entender assim que ouvisse. Então. A Aparecidinha me contou que ouviu do seu namorado, o Herculano, que soube através da esposa dele, a Creuzedete, serviçal na mansão dos Fulaninhos, que uma mãe de santo foi lá para fazer um trabalho para modo de as coisas melhorarem pro lado deles.

- Sério isto? Na mansão dos Fulaninhos? Herdeiros do Dr. Fulaninho, donos daquela rede de ...

- Pode parar, não fale mais nada. Eles mesmos. Mas Creuzedete, que há muito entregou sua vida para servir ao pastor, se refugiou no fundo da mansão, na beira do lago, acompanhada de Claudinho, um faz-tudo, inclusive creuzedetar nas horas vagas. Bem, este Claudinho também faz tudo com Imaculadinha, uma barista exclusiva da mansão. Bem, Imaculadinha contou ao Claudinho o que aconteceu no salão da casa. Enquanto dava suas creuzedetadas revelou à Crezedete, que excluiu esta parte da versão original ao Herculano, que sabe de tudo, mas finge de morto para não ter que trabalhar, que o Dr. Fulaninho, um dos filhos do falecido Dr. Fulano, perguntou quando iriam dominar tudo e tomar de assalto o trem pagador.

- Credo, Odete, querem tudo mesmo, hem!

- Então, foi aí que a Mãe parou tudo, fez sinal para as ayabás pararem, o tambor silenciou, e numa brisa gelada ela proferiu:

Ah, mizifio, ocês querem um troço e tem jeito mais não. Os dois Okós que ocês prantaram vai tudo sair do caminho da mona.
   
Então Odete, quer dizer que os irmãos fulaninhos vão se estropiar? 

yé, mò!

Caramba, você está esquisita, é você mesma? Odete, fala comigo, Odete... puxa vida, logo agora que a vontade ficou intensa perdi a canalização.

É isto aí!

Em tempo:
A Odete que não entende nada de Terreiro, e que apenas repassou a informação, não sabe que ocorreu uma misturada de palavras do kimbundo, português e yorubá:

Des: de despreocupar-se.
Cuenda: do quimbundo cuende (andar).
Mona: do quimbundo mona – criança, que é usada nos Terreiros de Angola para designar meninas e mulheres.
Okó: em yorubá é pênis. Oko òrìsà da agricultura e òkò é lança. Mas aqui neste caso ela estava referindo-se a um homem. Homem em yorubá okúnri; e mulher, obìrin.






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