sexta-feira, 20 de maio de 2016

A vizinha do 301

Após o café da manhã, sentou-se para ler o jornal. mas onde estava o jornal? Levantou-se, procurou na estante, na mesa da sala de estar (que nunca foi usada), abriu a porta da frente, olhou no corredor, voltou, pegou o interfone, ligou para a portaria, perguntou por ele, onde soube que já fora entregue. Desligou o aparelho cheio de ódio - só pode ser aquela idiota da 301, aquela gorda, aquela vadia, aquela ... puta.

Voltou para a mesa para reiniciar seu desjejum e ao sentar viu o jornal dobrado ao lado da sua garrafa térmica, com café arábica sem açúcar, como manda a tradição dos homens de bem da sua família, além da hipertensão e do diabetes. Percebeu que não conseguia ler. Achou que estava tendo um AVC, levou as mãos à testa em total desespero. O mundo girou mais lento e mais rápido, mais lento e mais rápido, até notar que faltavam os óculos. Levantou-se cheio de ódio - só pode ser aquela idiota da 301, aquela gorda, aquela vadia, aquela ... puta.

Ligou novamente para a portaria:
- Aqui é o Dr. Almeida. Quero saber se alguém subiu no meu apartamento, pois o jornal mudou de lugar e o café está na mesa. Chame a polícia, é caso de vida ou morte.

- Dr. Almeida, aqui é o Toninho, e quem subiu no seu apartamento nesta manhã, como faz todos os dias, foi a Dona Irene, que dá uma arrumada na sua casa e enquanto o senhor está acordando e banhando.

- Irene, não sei nada desta tal de Irene. Aliás deve ser sua cúmplice aqui nestes assaltos ao prédio.

Caminhou ao banheiro convicto de que uma ducha fria apaziguaria o espírito. Somente ao entrar no box, deu-se conta de que já estava nu antes de entrar no ambiente. Caralho, o que será que aconteceu com a minha roupa? Para sua surpresa, a roupa estava colocada por sobre a pia, ao lado da toalha já usada. Colocou a mão no queixo, contemplativo. Passou a mão no pouco cabelo que ainda resistia ao inevitável, e verificou que estava molhado. Vestiu-se e descobriu os óculos no bolso da camisa. Sai dali cheio de ódio - só pode ser praga daquela idiota da 301, aquela gorda, aquela vadia, aquela ... puta.

Sentou-se frente à TV, ligou no noticiário e aí teve a certeza de que estava completamente louco, pois não entendia nada do que se falava. Levou um bom tempo, entre soluços, espasmos e tremores esquisitos para perceber que estava num canal japonês. Refeito do susto, mudou para o canal de notícias que falava de coisas que preferia que fossem em japonês. Desligou o aparelho cheio de ódio - quem mudou o canal deve ter sido aquela idiota da 301, aquela gorda, aquela vadia, aquela ... puta.

Pegou novamente o interfone, ligou para a portaria e o Toninho mais uma vez atendeu pacientemente:
- Dr. Almeida, em que posso ser útil?

- Ùtil? Comece passando o telefone para a autoridade competente.

- Dr. Almeida, sou eu, o Toninho.

- Toninho!! Graças a Deus, meu filho, olha, tem um sujeito hackeando a minha linha e se fazendo passar por você. Me transfere aí a ligação para o 301 que eu quero falar umas verdades para aquela piranha.

- Dr. Almeida, quem reside no 301 é o senador, e ele não se encontra na cidade.

- O senador? Como assim o senador? Aquele bandido ainda mora aqui? Será que deu para contratar piranhinhas para seu apartamento?

- Sim, Dr. Almeida, ele mora aqui e claro que não, Dr. Almeida, com certeza absoluta ele não contrata moças para frequentarem seu apartamento.

- Olha aqui, vá à merda, Toninho. Eu vou chamar a polícia para prender você por maus tratos ao idoso - desligou com força suficiente para quebrar o suporte.

Sentou-se na espreguiçadeira da varanda, pegou um charuto da caixa exclusiva, deu um gole de seleto conhaque francês e uma lenta e cerimoniosa tragada no tabaco, olhou para o prédio da frente, colocou seus potentes binóculos de uso militar e ficou ali em gozoso deleite apreciando a gostosa do 301 do prédio da frente em frenética atividade domiciliar.

- Suspiros ... sou apaixonado com esta vadia do 301.

É isto aí! 

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