segunda-feira, 30 de maio de 2016

Entre quatro paredes.

Jota Cardoso pediu a mão da casta Carminha Fonseca em casamento, fazendo votos secretos, juras de amor eternas e promessas infindas. Naquela noite beijou-a demoradamente na sala de estar da residência da moça. Tocaram-se como se fossem unir seus corpos em uma transcendente metafísica. Navegou pelo corpinho miúdo da amada como um marujo a dobrar o Cabo das Tormentas, com firmeza e segurança.

Carminha Fonseca conteve-se enquanto pode, segurou ao máximo a estranha sensação de prazer nunca antes percebida até que desmaiou no sofá, em tom pálido e pele gélida, sem reação e sem nenhuma atividade carnal. O vestido decotado caído sobre o ventre, a barra suspensa até o quadril, ali, imóvel, estática e fria.

Jota Cardoso saiu bem devagar, de costas, contemplando a sua Vênus de Milo com coração acelerado, tremores desconcertantes e pernas bambas, amolecidas feito molas frágeis. Arrumou a roupa, abriu a janela que dava para o beco, de onde alcançou a rua e partiu célere para os braços de Marcinha, uma inesgotável fonte de luxúrias da rua do pecado.

Carminha Fonseca abriu os olhos devagar, olhou ao redor, recompôs-se e aguardou chegar o grande dia do que seria o dia mais feliz da sua vida. Mas este dia estava fadado a nunca mais chegar, pois sua cara metade submergiu na maré baixa do mundo. A mocinha partiu para a busca espiritual de respostas. Apelou ao padre, ao pastor, à mãe de santo, ao pai de santo, ao benzedor, à mãe de terreiro, e nada lhe servia.

Foi então, meses depois do processo, que Jota Cardoso retornou à sua porta. Trazia consigo três duzias de rosas vermelhas, um anel de brilhantes e um sorriso largo na sua face quadrada. A abandonada olhou-o nos olhos escorregadios, sentiu nojo, desprezo, ódio, amargura, mágoa e asco. Deu-lhe um tapa estatelante. O rapaz permaneceu parado. Deu-lhe outro tapa e outro e mais outro.

Ele acabou por segurar-lhe as mãos, beijou-lhe escandalosamente, empurrou-lhe para a sala que outrora fora o início do desejo e possuiu-a em completa descoordenação moral. Carminha Fonseca entregou-se sem questionar, sem pestanejar e sem querer parar. Foram ao final, quando desmaiou. Desta vez, Jota Cardoso manteve-se ao seu lado, em posição de conforto. A noiva voltou ao mundo real  gritou - não para não para não para, e esbofeteou o rapaz em grande estilo, daí viajaram ao delírio, seguido de desmaios, seguido de volúpia, seguido de desmaio, seguido de ...  

É isto aí!

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