terça-feira, 17 de maio de 2016

O analista da Pitangueira e o Amorômetro.

- Eu sofro de overdose de amor, sabe? Já analisei, diagnostiquei e agora estou aqui para que ocorra a manifestação da minha cura através dos seus conhecimentos.

- Overdose de amor ...

- Vai ficar repetindo o que falo ou vai entrar pela porta do meu sofrimento, escancarada ao mundo?

- Vejo que você não manifestou a sua idade na ficha.

- Manifestar a minha idade? E eu sou lá uma mulher de manifestações inúteis? Eu não tenho uma idade, eu sou a idade que se apresenta.

- E esta porta? Está escancarada, mas não a vejo.

- Então! É de fato uma porta, sim, está escancarada, e não pode ser admirada por olhares aqui, ali e alhures. Ela tem uma propriedade ímpar, unidirecional de estar permanentemente escancarada aos olhos do meu amor.

- Mas você disse que estava aos olhos do mundo.

- Olha aqui, doutor, meu mundo, meu universo, minha galáxia e até meu buraco negro são exclusivas e não é uma Nasa ou qualquer outra agenciazinha de merda cósmica que vai penetrando no labirinto da fauna e da flora da minha existência.

- Você tem um dosador de amor? Um amorômetro ou equivalente? Desta forma poderemos quantificar as doses, subdoses e overdoses deste seu sentimento.

- Pois é isto que vim falar, é exatamente isto. Meu amorômetro explodiu quando atingi o ápice da volúpia, do prazer, e do desejo, doutor. Eu me senti embriagada pelo gozo gozoso, e depois disto veio o vazio, onde me vi macambúzia, sorumbática e sobretudo misantrópica, não no sentido antropofóbico, afinal eu amo um anthropos, mas na forma taciturna, entende? 

- Seu amorômetro. Precisamos aprofundar nisto. Fale mais sobre este marcador de sentimentos. 

- Hoje não posso. E se permite, tenho que sair agora.

- Quanto a sair, por favor, fique à vontade, mas por que não pode especificamente hoje?

- É que hoje é dia de iniciarmos uma terapia indicada pelo seu Zezinho da Farmácia, que recomendou uma pílulazinha azul, lá em casa, e ele já enviou pelo zap zap que tomou há uma hora atrás ...

É isto aí!

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