quarta-feira, 8 de junho de 2016

Discutindo a relação

Carlos Olavo Júnior, você nunca diz que me ama.

Mas, Carminha, quando você me acolheu, eu estava na sarjeta da desilusão, e você mesma prometeu nunca me cobrar um sentimento que eu não pudesse oferecer.

Maaaaas isto foi há três anos e até agora você comeu do melhor, bebeu de fonte segura, aninhou-se no conforto do meu amor e nada? Não aconteceu nada?

Estamos discutindo nossa relação? É para ser sincero do fundo do meu coração?

Sim, estamos discutindo nossa relação. E, claro, é óbvio que você tem a obrigação de contar toda a verdade. Por que você não diz nunca que me ama, Carlos Olavo?

Sabe, Carminha, nem sei por onde começar. Sinto que estou aqui fisicamente, mas por dentro ainda estou sofrendo de mal de amor não resolvido.

Mal de amor? Mas existirá um mal de amor? Vamos conversar sobre isto para encontrarmos respostas que poderão aliviar seu sofrimento. Vamos começar do ponto de mutação, quando se deu isto, onde vocês se desconheceram e depois como se deu o início do nosso relacionamento.

Então, foi numa festa na casa de nossa amiga em comum que nos vimos pela última vez, e deu que nossos olhos se descruzaram, nossos corações se emudeceram e naquele instante tudo girou enquanto ficávamos estáticos, obnubilados e desconfortáveis um pelo outro, foi então que na saída, tropecei na escada e caí literalmente aos seus pés, desacordado pela queda, aí você chamou pelo SAMU e ficou ao meu lado até que eu voltasse ao mundo real.

E o que o fez se anular por ela?

Anular, não digo, mas há um lugar em mim que ainda é limítrofe dela. Sabe o que mais me fascinou? A voz. Sim, a voz aveludada, macia, saindo do fundo de sua alma, passando pelas cordas vocais, que feito um instrumento afinadíssimo, numa divisão em compassos marcados por tempos fortes e fracos. Havia ainda o ritmo singular com padrões de duração das sílabas tônicas.

Interessante isto, a voz, as palavras, a percepção pela expressão vocal. Muito interessante. Mas plágios estão aí pipocando desde que o mundo cabe num CD, então isto é canoa furada.

Bem, nunca pensei por este lado, mas além disto, a pele, humm, a pele. Leve, brilhante, macia e suave feito uma seda pura ao mais leve toque, em toda a extensão corpórea. Era impossível resistir àquela fragrância natural que exalava de seus poros, bem como não perceber a textura do seu tecido epitelial.

Carlos Olavo, isto daí não tem nada de mais, afinal ego é antes de tudo corporal. Ele assinala que as sensações táteis se diferenciam dos demais registros sensoriais por fornecerem dupla percepção: sentimos o objeto que toca nossa pele e, com isso, temos consciência da pele sendo tocada. Então é uma coisa física e não tem nada de metafísico nisto.

Sério isto? Dupla percepção? Nossa, que susto, havia entendido dupla .., mas isto não ocorreu. Mas, uau, chego até a senti-la falando assim desta maneira. Carminha, poderia me explicar um pouco mais sobre isto?

Digamos que o toque entre a sua pele jovem e a dela, foi o que de fato inaugurou a existência entre as partes. Mas prossiga, vamos penetrar neste labirinto neuro-sensorial mais um pouco e ver a porta por onde esta vadia, digo, esta fantasia sai de você..

Neuro-sensorial? Bem, disto não entendo, mas, claro, falarei do corpo. que coisa divina, fantástica, insinuante, sedutora, maravilhosa, fenomenal, estonteante, sensacional, esculpida para ser uma semi-deusa do Olimpo. Seu andar era mágico, seu gingado tinha uma candura e ao mesmo tempo uma frenética evolução. Era um pecado num corpo santo ou uma santa em atos pecaminosos. As coxas, puxa vida, lapidadas pela natureza para seduzirem, bem como os braços, as mãos, as pernas, os pés. O cabelo, olha, parecia que fazia propaganda de shampoo em tempo integral Isto sem falar nos dentes, simetricamente postos numa boca cujos lábios me deixavam louco.

Bem, nestes termos, Carlos Olavo Júnior, devido à sua obsessão libidinosa e patológica, por favor, saia daqui e vá em busca da sua amada, mas não levará nada do que é meu, como o carro, o cartão, as milhas, as roupas que comprei pensando no fruto que seria gerado deste relacionamento, enfim, volte para o aconchego dos seus delírios.

Carminha, espera ...

Sim???

Incrível isto, mas num raio de rompante cósmico, me vejo extasiado por você. Eu te amo!

Entendo, mas mesmo assim, eu preciso falar-lhe uma coisa que vai mudar nossas vidas, Carlos Olavo.

Fala, amor, pode falar, eu sou todo ouvidos, sou todo seu, sou a sua vontade.

Carlos Olavo Júnior, vai se foder, vá à puta e à reputa que o pariu, vá à merda, vá aos quintos dos infernos, vá ver se estou lá fora, melhor, vá ver se a putinha de tafetá está te esperando no bordel da sua mãe.

Carminha, então ... então ... Car car car minha ... você não me ama mais?

Sim, Carlos Olavo, eu te amo, porém eu me amo muito mais, em dose cavalar tríplice. Agora sai por bem ou sairá por coice.

É isto aí!

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