terça-feira, 27 de setembro de 2016

A reintegração ao sistema

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Foi apanhado na porta de casa, às 21 horas do dia 25 de agosto de 1954, jogado numa viatura blindada e levado a cárcere privado em local incerto e não sabido. No dia 17 de fevereiro de 1958 um advogado dativo, indicado pelo Estado o visitou para saber detalhes do crime ao que estava respondendo em segredo de justiça.

Olhou espantado para o advogado e não disse nada. E nada mais aconteceu até que no dia 28 de maio de 1959, quando foi colocado num trem cargueiro com destino à capital, para ser arguido de questões que supostamente culminariam na sua culpabilidade.

Em 12 de dezembro de 1960, um oficial da guarda carcerária o tirou aos tapas da cela solitária e o encaminhou a um salão escuro e aterrorizante, conhecido como Sala do Blá-Blá-Blá, onde os três interrogadores eram seres desprovidos de paciência, dignidade, ética e humanidade. Não disse nada por que não sabia de nada, e pelo silêncio foi, em trapo de músculos, ossos e alma, jogado noutra cela solitária, mais fria e com menos luz.

No carnaval de 1961 foi transferido para uma penitenciária federal, numa ilha oceânica, inacessível e inóspita. Nesta ocasião foi interrogado na presença de cinco militares e dois políticos gordos sobre a possível participação de opositores ao movimento de retomada do poder pela tradição, pela família e pelo direito á propriedade. Entre tapas, socos e pontapés, foi recolhido ao pior dos aposentos da casa.

Em agosto de 1963 retornaram com ele ao continente, onde passou a cumprir a detenção provisória para averiguação num suposto quartel militar, de onde saiu numa estranha convulsão pública um ano depois, em abril de 1964.

Em 1968 foi detido como indivíduo de alta periculosidade ao mendigar por entre transeuntes de numerosa passeata, e foi covardemente levado ao manicômio judiciário, onde finalmente encontrou seu grande amor. A moça fugira com o namorado, filho de um opositor do regime, e o pai a denunciou como louca. Foram felizes para quase sempre, quando em 1990 foram liberados para a reintegração social, de onde não conseguiram escapar da inevitabilidade da exclusão social.

Para sua sorte, em 2016 foi reintegrado ao sistema carcerário, graças a uma delação premiada validada em primazia dos direitos de terceiros cujo CIC fora extraviado para homônimo de suposto indivíduo que talvez tenha feito alguma coisa, que segundo afirmaram em conversa reservada dois sisudos senhores de enorme envergadura de imoralidade e aética, estava relacionado ao crime do réu em questão, que nunca confessou, como também nunca negou, de forma que era suspeito pelo silêncio.

É isto aí! 

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