sábado, 15 de outubro de 2016

A janela democrática

A janela lateral do meu canto remoto de realidade virtual e cibernética é muito democrática. Daqui ouço, pelas noites e dias - em alto e bom som as ondas sonoras provenientes do mundo que insiste em existir além da tela do computador. Tem crianças gritando, rindo, caminhões apressados e pessoas passando e falando, a maioria sozinhas coladas nos seus aparelhos esquisitos.

Há também os sons que chamam a minha atenção. Por exemplo, aqui perto numa obra, cujo enxadão bate às sete horas, sempre olho pela janela e vejo aqueles homens simples, uns doze ou quinze, de mãos dadas, fazendo uma prece por aquele dia. Acho aquele momento sensacional. Há ali uma manifestação de cumplicidade pela batalha daquele dia. 

Nesta obra tem um trabalhador, que ainda não identifiquei, pois fica lá dentro da área de serviço, que  nas horas de quietude do dia transforma-se em cantor lírico. Impressionante. Está ali um sujeito que poderia ter trilhado outro caminho, mas preferiu construir casas.

Há nas noites, apenas uma vez por semana, um discreto badalar do sino de um templo religioso. Neste dia só há este processo sonoro, que acredito preceder a um evento religioso. Em outras duas há o rufar dos tambores e atabaques de um outro centro religioso, além das palmas e cantoria. Têm hora para começar e para terminar. Ouço vozes graves e agudas, e a cantoria é agradável. O ritmo é interessante, não aumenta, não é provocador, enfim, duas vezes na semana, com ou sem chuva, os tambores e os atabaques batem na minha janela.

Nestas duas ocasiões que rufam, assim que cessa (imediatamente após) o som desta organização social, um outro movimento antropológico invade o ar e a janela com hinos religiosos, destes produzidos em escala comercial. Ficam ali em sons metálicos, vozes afinadas em alto (às vezes muito alto) e bom som, num ritmo entre bolero e salsa-rock. Acho interessante, por que são de uma enérgica pungência sonora. Deve haver quem deles necessite para se libertar de algo.

Em outros dois dias, escuto sempre um senhor proferindo sermões. Fala bem, voz educada, tonalidade e dicção bem trabalhadas e usufruindo do tema religioso judaico-cristão. Também cumpre um horário rigoroso, de cerca de uma hora e meia. Não há nele gritos, nem promessa de curas fantásticas nem ameaças aos que não foram contribuintes. Há nele a palavra, não solta, mas coordenada em sua crença. Tem dia que até gosto de ouvir.

Deve haver nos céus um sentido para todas estas manifestações, e da minha janela desejo a todos que encontrem e conquistem seus ideais de uma vida feliz, honesta e laboriosa.

É isto aí!




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