domingo, 16 de outubro de 2016

O Analista da Pitangueira e um caso de Obsessão

- Seu Malaquias, estamos aqui para somar, o senhor pode ficar a vontade, não tenha pressa, não tenha medo.
Aqui consta que o senhor é casado, engenheiro, empresário, pecuarista, professor, escritor, enfim, o senhor são muitos.

- Sou apenas um Malaquias neste mundo, doutor. Mas diga-me, como se dá esta prática que o senhor com maestria coordena, já com fama em todo o reino?

- Esta modalidade terapêutica que aplicamos na Pitangueira é revolucionária, única no mundo, criada por um grande clínico pan-holístico, diplomado com louvor pelo Colégio dos Analistas da Pitangueira, com trabalho divulgado nos melhores centros de discussão temática do planeta.

- Puxa, que coisa boa, doutor. Eu vim achando que isto aqui seria um jogo de perguntas e respostas, onde o senhor iria me tocaiando ate chegar no matadouro, mas pelo visto tem lá suas técnicas. Bom, por onde eu começo, então?

- Comece pelo motivo que o trouxe aqui. É sempre um bom começo.

- Pois é. Deu-se que Emereciana saiu de casa. E isto me deixou arrasado, magoado, taciturno, pensativo, eu .. eu ... eu acho que ficou um vazio. Fiquei ali muitos dias matutando sobre aquilo, sobre como a coisa se deu ...

- Emereciana é sua esposa?

- Não.

- Quer falar sobre ela?

- Não.

- Fale um pouco destas reflexões, que o tornaram pensativo nos últimos dias.

- Certa vez, há muitos anos, eu tinha uma namorada - muitos, muitos anos, uns quarenta anos atrás. Deu que a danada prenhou e arrumei casa prá ela, dei segurança, conforto, dei tudo que ela precisava, e continuamos ali aquela vidinha besta de sempre.

- Sua esposa?

- Não.

- Quer falar sobre ela?

- Não.

- Continue então!

- Aí passou uns dez anos daquele evento, eu estava de caso com uma moça, de boa família, moça prendada, estudada, trabalhadeira, mas aí a danada engravidou. Foi de um desconforto enorme. Mas mesmo assim, dei casa, segurança, recursos mensais, poupança, e a gente acabou se aninhando pelos anos à frente.

- Foi com esta que o senhor casou?

- Caramba, o senhor é obcecado em casamento? Credo.  

- Então, há cerca de uns vinte anos atrás, eu tinha um relacionamento seguro, sadio, religioso até, com uma moça espetacular, divina, de família, um brocado de diamante com ouro. Certa tardinha de outono, nós dois ali na querência sem fim, ela acabou dizendo que tinha no ventre uma cria minha. Aquilo me deixou doido. Mas a danada estava certa, e para complicar, teve gêmeos. Dei tudo, casa, comida, segurança, recursos, conforto, e nós acabamos nos entendo muito bem.

- Hummm .. quer falar mais sobre isto?

- Acredito que o doutor quer saber se foi com ela que contrai matrimonio.

- Se o senhor assim desejar. 

- Olha, só para terminar o assunto - não! - ela não é minha esposa. E quer saber, cansei. O senhor tem que se tratar. O seu caso é obsessão.

- Seu Malaquias, semana que vem no mesmo horário?

- Dá para ser mais cedo? É que eu tenho uma conversa para resolver com uma moça que está tendo um relacionamento sério comigo - moça fina. 

É isto aí!



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