domingo, 13 de novembro de 2016

A vingança retardada

João Souza era um destes servidores pontuais, exemplares e clássicos no traje e no linguajar. 
Tinha hábitos comuns, mecânicos e previsíveis. Nunca participou de festas, de greves, de confraternizações, eleições e de fuxicos na instituição.
  
Todas as quartas-feiras seu horário de almoço era dividido entre o lanche e o ritual das coisas bizarras. E foi no dia 18 de março de 2015 que tomou a decisão que entendeu ser capaz de abalar a república. Naquela quarta-feira, por sessenta minutos, de 13:32 às 14:41, enquanto impreterivelmente, consultava o Oráculo, caderno de anotações bizarras que aconteceram ao seu redor durante a semana, na sua vida e na sua sala, resolveu zerar o histórico do computador da sua sala. E percebeu que aquilo era bom. Registrou no Oráculo que esta bizarrice deveria ser ampliada e o guardou meticulosamente na segunda gaveta do lado esquerdo, a única com chave.

Com a mente transbordando em mais de mil possibilidades, na quarta-feira seguinte, no ritual de consulta, deu-se conta de novamente zerar o histórico, e estava novamente zerado. Registrou parcimoniosamente. Abriu sua caixa de emails privados e por indução lógica, buscou pelo histórico de recebidos - zerou, enviados - zerou, spam - zerou, lixeira - zerou. Aquilo estava ficando tão prazeroso quanto sinistro, escreveu no Oráculo. Ao final do orgasmo dos zeros, atingiu o gozo encerrando a conta pessoal do e-mail.

Na quarta-feira seguinte verificou Facebook, WhatsApp, Facebook Messenger, Tumbrl, Instagram, Twitter, Skype, Viber, Snapchat, Pinterest e Linkedin e constatou que podia totalmente zera-los sem sentir dor. Tudo apagado, sem registros, sem histórico, sem referências cruzadas, enfim, estava quase no ponto de equilíbrio. Naquela tarde fechou todas as contas, para deleite e regozijo pleno e descansou.

Sete dias depois tomou nas mãos o smartphone e desmontou metodicamente o aparelho com uma naturalidade incomum. Depois de ter todas as peças importantes por sobre a mesa, tornou a utilizar do cinzeiro como uma pira de desapego. Na quinta-feira, apenas um dia depois do último sacrifício, não foi trabalhar pela primeira vez em vinte  e seis anos de repartição pública, por que decidiu ir para local incerto e não sabido até darem por sua falta, o que nunca aconteceu até a presente data.

É isto aí!


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