quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Paul Van Ostayen

Seu barco saiu à tempestade. Depois de 32 anos de vida transtornada, Paul Van Ostayen naufragou em 18 de março de 1928 em um sanatório de Miavoye-Anthée, nas Ardenas belgas, vítima da então incurável e muito literária tuberculose.

 Ao longo de sua curta vida Paul Van Ostayen, seguramente o maior poeta de língua islandesa (ou, mais exatamente, língua nurlandesa) do século XX, praticou uma variedade de estilos poéticos que revolucionou a poesia de Flandres e da Holanda e que certamente teria influenciado a poesia internacional se sua língua materna possuísse uma irradiação demográfica mais importante. O que acontece com Van Ostayen acontece também a outros gigantes literários como Fernando Pessoa e Machado de Assis, ainda não inteiramente reconhecidos como escritores do primeiro time da literatura universal por terem escrito em uma língua “clandestina”, é o português. (A ironia da história: é justamente na Holanda através do trabalho do tradutor-escritor August Willemseu, que Machado de Assis começa a ter suas primeiras traduções à altura do original).

 Paul Van Ostayen nasceu em 1896, no porto belga de Antuérpia. Seu pai, pequeno empresário, era de origem holandesa. Sua mãe provinha do norte da Bélgica. A vida do pequeno Paul transcorreu sem maiores acontecimentos, o menino obtendo resultados escolares medíocres até que se afasta da escola, em 1913, para começar a trabalhar como funcionário na prefeitura de Antuérpia. Nesse momento, Van Ostayen  já escreve e se engaja luta de emancipação do povo flamengo contra a opressão de uma burguesia, uma aristocracia e. um clero de Flandres que tinha optado pela língua francesa, renegando a cultura flamenga.

 Os primeiros escritos de Van Ostayen são poemas marcados por um romantismo juvenil, dentro dos padrões tradicionais. Seu primeiro artigo publicado, “Arte de Agora”, revela sua paixão pelas artes plásticas - paixão que persistirá durante toda sua existência. Quase todos os seus melhores amigos são pintores e o elemento pictórico será essencial em livros de poemas como As Festas de Angústia e Dor (De Feesten Van Angst en Píjn). Nos últimos anos de vida ele fará da venda de obras de arte a sua fonte (ainda que precária) de sustento.

 Quando se desencadeia a 1ª Guerra Mundial, Paul Van Ostayen se encontra em Antuérpia, cidade-chave no conflito, já que está rodeada por fortificação. Depois de um intenso bombardeio, a cidade cai finalmente em poder dos alemães. As vivências do poeta durante os enfrenta­mentos são descritas em seu poema longo “Cidade Ameaçada” (“Bedreigde Stad”).

 Em setembro de 1917, sob a ocupação alemã, um acontecimento, até certo ponto banal, será determinante para o curso posterior da vida de Van Ostaven. Durante urna cerimônia religiosa, o poeta vaia o cardeal Mercier, conhecido por suas opiniões abertamente antiflamengas. Van Ostayen é preso e posto em liberdade quase em seguida, mas os diferentes processos que se seguiram aumentarão a pena inicial de três meses de prisão para onze meses, razão pela qual o poeta resolve fugir, um ano depois dos fatos, para a Alemanha, no momento mesmo em que as tropas aliadas a avançam sobre a Antuérpia.

 Durante a ocupação alemã, parte dos flamingantes (partidários da “causa flamenga”) se havia aliado aos alemães pensando que, assim, poderia conseguir quebrar a dominação francófona. Mesmo que Van Ostayen nunca tenha simpatizado com o ocupante alemão, preferiu não correr nenhum risco e não se engajou em nenhuma ação que pudesse levá-lo a uma nova condenação. Em novembro de 1918 Van Ostayen instalou-se em Berlim, onde permaneceu mais de três anos, junto com sua amada Emmeke em condições próximas da miséria.

 O relacionamento de Van Ostayen com Emmeke Clément, com quem manteve relações amorosas e de amizade até o fim da vida, não foi ainda devidamente esclarecido. Van Ostayen conheceu-a no outono de 1917 quando os alemães ainda ocupavam Antuérpia. Emmeke era três anos mais velha que o poeta e saia de um casamento de quatro anos. Paul Van Ostayen permanece­ria sempre ligado a ela, mesmo depois que Emmeke - com o consentimento do poeta - se casou com um alemão. Poeta, que deliberadamente se separou de sua amada, o destino de Van Ostayen é análogo ao de Kierkegaard e Kafka, escritores talvez tão impenetráveis quanto ele.

 Durante sua estada em Berlim, Van Ostayen continuou seu trabalho de escritor e entrou em contato com os dadaístas, com quem finalmente acabou na cadeia por seus “excessos” no comportamento.

Nessa época Paul Van Ostayen publica vários artigos sobre artes plásticas, literatura e sobre a luta de emancipação do povo flamengo.

 Em 1920 publica De Festen Van Angst an Pijn (As Festas de Angústia e Dor) e Bezette Stad (Cidade Ocupada). Por seu niilismo e seu desespero, estes dois livros se demarcam muito claramente de suas obras anteriores Music-Hall e Het Sienjaal, onde transparece sua fé expressionista em um mundo renovado. Não surpreende que em Het Sienjaal se possa rastrear alguma influência de Whitman. Ele próprio admite também a influência de Else Lasker-Shuler. Em As Festas de Angústia e Dor e em Cidade Ocupada é visível a influência da poesia de Apollinaire, o que, aliás, o próprio poeta admite. Estes dois últimos livros - o primeiro escrito a mão e em várias cores - se destacam pela ruptura radical com a tradição poética - eles pertencem à linhagem do Mallarmé do “Coup des Dés” os poemas são palavras soltas, gritos atormentados sublinhados por uma tipografia sofisticadíssima próxima das experiências dadaístas e surrealistas. No entanto, a configuração dos poemas de Van Ostayen é original e guarda independência em relação aos novos padrões da vanguarda européia.

 Não suportando mais sua vida em Berlim, Van Ostayen volta a Antuérpia, onde leva uma vida clandestina, à espera de uma anistia. Anistia que chega finalmente e o poeta passa a ganhar a vida como “marchand”. Desse momento já não publicará nenhum livro de poesia. Em meio de 1926, Van Ostayen descobre haver contraído tuberculose, de que vem a falecer em setembro do ano seguinte.

 A Influência de Van Ostayen nas letras flamengas e holandescas tem sido enorme, a tal ponto que um número considerável de poetas em Flandres e na Holanda se debateu em vão para libertar-se de sua presença esmagadora.

Em pouco mais dez anos de atividade poética, Van Ostayen (que viveu apenas 32 anos) revolucionou a poesia de língua neerlandesa e introduziu nela novos procedimentos, ainda hoje dominantes.

Philippe Humblé e Walter Costa, 
(matéria publicada em jan/1985 no suplemento
da Folha de São Paulo intitulada Folhetim.)


VERSO 6
Eu não posso colecionar selos
Eu não posso colecionar fotos de mulheres
Eu não posso colecionar namoros
nem sabedoria
eu já não posso nada mais
          eu já não posso nada mais
Porque não apago a luz
          e não vou pra cama
Eu quero provar
          estar nú
          pelado quem sabe sim púrpura gelada
                                                e palidez
Não é assim o próprio princípio principiante
Eu não quero saber nada
eu não quero perguntar
          porque
          eu não me tornei um colecionador de selos
Eu começarei por dar meu fracasso
Eu começarei por dar minha falência
Eu me darei um pobre despedaço de terra
                              uma terra pisoteada
                              uma terra de urzes
                              uma cidade ocupada
Eu quero estar nu
     e começar

(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)



MELOPÉIA

Sob o luar escorre o longo rio
Sobre o longo rio escorre cansada a lua
Sob o luar no longo rio escorre a canoa pro mar

Pela canalta
Pelo pradalto
escorre com a lua que escorre a canoa pro mar
Assim são parceiros pro mar a canoa a lua e o homem
Por que escorrem a lua e o homem ambos mansos pro mar

(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)



PAISAGEM  DE OUTONO

Na neblina é devagar um boi com um carro de boi
andando junto à neblina nunca perde o passo
o boi do carro de boi
Fora da neblina dentro da neblina com o carro tropeçando
firme não adormece o carroceiro
num sono sem trilhas

Atrás do carro bóia luz de lanterna
uma mínima cunha de clareza na negrofunda rua

(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)



O VELHO

Um velho na rua
sua pequena história para a velha
não é nada soa como uma tragédia rarefeita
sua voz é branca
parece uma faca tão longamente afiada
até o aço ficar magro
como um objeto fora dele se pendura esta voz
sobre o preto comprido casado
O velho magro em seu casaco preto
parece uma planta preta
Vê você isto joga a angústia por sua boca
o primeiro saborear de uma narcose

(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)



NOITE

Ah, minha alma é só som
Nesta hora de só cor;
Sons que se elevam soltos
Num sonso jardim de odor.

(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)



POEMA

E cada nova cidade
    flor que murcha
              outono amarelece a flor

              serão todas as cidades assim
              serão todas assim
              assim são todas

Em todo lugar
em todo lugar e em nenhum
             todo lugar é nenhum
em todo lugar
             os mesmos bombons tristes em copos
             bebida fica pérola não há sede
uma canção está em todo lugar             de amor e adultério
             serão todas as cidades assim
             serão todas assim
             assim são todas

(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)



BERCEUSE PRESQUE NÈGRE

Não participa o chipanzé

Por que não participa o chipanzé
                              O chipanzé
                                           tem
                               enjôo do mar
Tem tanta água no mar
imagina o chipanzé

(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)

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