quinta-feira, 30 de março de 2017

Um barrete vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto.

Seres humanos da Tribo Galibi*
Aqui da Pitangueira, quando subo na Colina do Bom Senso, não vejo mais a vizinha Pindorama. Ela retornou ao estado vegetativo, entre brumas espessas, fétidas e asquerosas, impedindo a vista do céu, das águas fartas e até do solo da mãe gentil. 

Nos primórdios do século XVI foi comprada pela alta corte dos homens de bem por um barrete vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto, conforme testemunhou e documentou o escrivão das majestadas do norte. Majestadas são aquele conjunto de majestadezinhas de merda unidas pelo único ideal de servir aos mesmos de sempre, desde sempre. 

Estas majestadas atuais que aí estão a destruir, não fazem nada mais a não ser garantir a continuidade do contrato, e em troca agradados pelo serviço com sangue, ouro e, claro, por mulheres belas, recatadas e do lar, pelos mesmos homens de bem, os muito discretos e permanentemente ocultos celtas, bretões e saxões, aqueles de sempre, desde sempre  ...

Pero Vaz de Caminha:

"Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro. Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si.

E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens.

Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.

Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar."

* A foto do século XIX dos seres humanos da tribo Galibi, encarcerados no Brasil e apresentados em zoológicos das cortes dos homens de bem, neste caso específico, em Paris - 1893, fornecida (e denunciada) pelo historiador francês Pascal Blanchard

É isto aí!


2 comentários:

  1. Primeiro dia de abril, de 2017 (a mentira definitivamente não está restrita a um só dia nesta triste e perdida Republiqueta)

    Caro Paulo, o observador da privilegiada Pitangueira

    O que mais vê daí? Ou melhor, o que não vê mais?

    A história não se engana, por isso a avidez da Majestada em retirá-la dos currículos escolares... Perdemos um pouco por dia, atualmente muito por dia eu diria,desde essa presepada do barrete vermelho, da carapuça de linho e do sombreiro preto. Se pudesse viajar no tempo e dizer-lhes que tudo isto era inútil...

    Enfim,o que temos é este agora possível e memórias a serem contadas, recontadas e refletidas. Que texto bom! Possivelmente, enquanto você o escrevia, perdemos mais, enquanto eu o lia, mais um pouco e enquanto eu comentava, mais outro tanto. Tenhamos sorte e memórias, sempre!
    Abraços,
    Amanda Machado

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    1. Findo primeiro de abril deste ano não misericordioso.

      Ora, ora - Misericórdia resulta do latim: miseris, cor e dare, que, juntas, significam "dar o coração àqueles que são vítimas da miséria".

      É esta a nossa missão nestes templos obscuros: registrar a história, afinal a majestada et caterva sem pudor não tem compromisso com os miseráveis.

      Amaldiçoadas sejam todas as majestadas, pois assim aprendi no pensamento vivo, entre seus aforismos, com minha guru Simone de Beauvoir - Não se pode escrever nada com indiferença.

      Um abraço, Amanda

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