domingo, 23 de abril de 2017

A incrível história de Mineirinho, Dona Candinha, uma miríade de anjos e a delação premiada!


Mineirinho era viciado em velórios. Havia nele uma dependência quase beirando a loucura. Começou na infância quando um grande amigo da família faleceu. Naquele momento não só ficou triste e comovido, como também sentiu-se obrigado a participar dos velórios. Dizia que houve uma luz que o mostrou esta sina e uma voz celestial disse que ao velar o morto, a sua presença permitiria que este entrasse no reino dos céus.

Desta forma sua presença era motivo de orgulho na cidade. Durante vinte e dois anos seus discursos eram famosos, longos, densos e passionais. Cada defunto tinha um tema, uma história glorificante ao som da Banda Municipal de São Cristóvão. Na maioria das vezes era comunicado até mesmo antes do padre, do médico ou do serviço funerário para dar tempo de prepara o discurso e o salmo que cantaria. Como a taxa de mortalidade era pequena, uma média de uma por semana, a vida seguia sem maiores problemas.

Um dia, ah!!! um dia ... procurou o pároco novo da comunidade e confessou que um serafim deu a graça da sua presença e deu-lhe regras claras que jamais poderiam ser quebradas:

-  não velar crianças até os doze anos por que já pertenciam ao reino dos céus.
- não velar moças virgens solteiras por que já pertenciam aos reinos dos céus.
- não velar beatas do Padre Claudinho, que com seus 70 anos de sacerdócio já as elevara ainda em vida ao reino dos céus.
- não velar as moças da casa de Dona Darcy, pois era assunto para a cúpula celestial.
- não velar os imorais, os idólatras, os adúlteros, os homossexuais, os ladrões, os avarentos, os bêbados, os caluniadores e os assaltantes por que não entrariam no reino dos céus.

O padre novo, gordo e de olhos esbugalhados, olhou para ele, ficou vermelho, coçou o queijo, esfregou as mãos ... e pausadamente falou - diga meu filho, isto está valendo a partir de quando?

Desde agora, seu padre,

É, mas aí tem um problema.

Problema nenhum seu padre.

Mineirinho, meu filho, você tem certeza mesmo disto? Um Serafim? Não pode ter sido um anjo menos graduado?

Certeza certa, convicta e absoluta, seu padre.

Deu que naquela semana morreu o senador, que detinha este título por ter sido o terceiro suplente de determinado político de extensa ficha criminal. Mineirinho, devido à atenção celestial não foi, mas com uma forte compulsão já pressentida para estes momentos, acorrentou-se numa coluna interna da casa, e entregou a chave do cadeado ao sacristão que repassaria ao Padre, conforme combinado. 

Naquele dia o mundo desabou no velório. Foi um bafafá, um trelélé, um rififi que não tinha fim. Pressionado, o padre em total desespero falou que ele estava passando mal.

- Logo foi desmentido pelo Doutor Juquinha.

O padre em pânico pediu perdão por que não poderia revelar op motivo mas afirmou que Mineirinho estava cumprindo penitência

- Silêncio total - aquilo poderia ser verdade e não tinha como desmentir.  

Passado quase seis meses, quando ninguém mais se lembrava do episódio, já que tudo voltou ao normal, morreu Dona Candinha, uma mulher de 96 anos, folclórica pelas atividades culturais que agitaram o clube social e as festas da alta sociedade. E mais uma vez Mineirinho não foi. Era esposa do senador e matriarca da família mais rica de toda a região.

O delegado, neto da falecida, que já tinha escutado boatos da história do serafim através da esposa do sacristão, que era sua confidente íntima, mandou buscar Mineirinho em casa. Ao chegarem, os soldados depararam com ele preso à corrente. Bateram busca pela casa toda, não acharam a chave, mas um serrote serviu para cortar a coluna de braúna e aos tapas, empurrões, e uso de força excessiva, o conduziram ao velório.

Foi um vexame - esperneava, gritava em total pânico, debatia, virava os olhos, agarrava-se aos carros, às pessoas que estavam do lado de fora, saltava, se contorcia, se espremia, até que foi colocado no salão da casa. Ali aumentaram seus estrebuchos e movimentos histéricos. 

Um grupo de cidadãos o tiraram do lugar e o levaram para a igreja, pois em meio aos estridentes alaridos, pedia para ser deixado lá. Uma vez colocado na porta, aconteceu um milagre.

Segundo testemunho fiel do Padre Claudinho, que por obra do milagre divino, apesar de ser cego e surdo, viu, sentiu e ouviu a igreja sacudida por um forte tremor, seguido de fechos de luz fantásticos e o rufar de asas angelicais. Foi neste momento que ele testemunhou Mineirinho ascender aos céus junto com dona Candinha, levados por uma miríade de anjos.

É isto aí!

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