domingo, 23 de abril de 2017

Cartas de amor

Córrego da Passagem, domingo de tardinha

Deolinda amor da minha vida

Sinto sua falta, sinto muito a sua falta. Aliás a falta é tanta que falta até assunto. Nem sei o que dizer dessa sua querença de estudar na cidade. Nós nascemos aqui, Deolinda, somos torreões desta vila.

Saudade, muita saudade.

Do seu hoje e eternamente sempre Zé.


Ribeirão Bonito, 12 de janeiro.

Querido Zé,

Só hoje, passados sete dias, recebi sua cartinha. Linda, gostei demais da conta. Sete dias, Zé, pensa bem. Aqui na cidade tem um modo de mandar carta que dura um pensamento. O sujeito depois que aperta o botão onde escreve a carta não pode nem pensar em arrepender.
Também tenho saudades,

Deolinda.  

Córrego da Passagem, sábado de manhã, beirando o almoço.

Deolinda minha alma gêmea,

Não compreendi bem este negócio de carta em pensamento, daí que resolvi levar este papel nos lugares que a gente gostava de ir, para que leve também o cheiro e a paisagem daqui no pensamento. Nesta semana a porquinha que seu pai me deu, criou quatro leitõezinhos. Precisa ver que lindeza. Resolvi escrever a carta daqui do chiqueiro para que ela leve o perfume e a alegria da porca. precisa ver que belezura. Também fui até debaixo do pé de manga que tem na ponta do curral, onde nós dois crescemos em juras de amor. Mostrei o papel para as folhas, para as flores que estavam em ramo no chão, ainda não tem manga, mas quero desfrutar delas ao seu lado.

Do seu amor para toda a vida, Zé 

Ribeirão Bonito, 26 de janeiro.

Querido Zé,

Que bom que as coisa na roça estão sendo bem cuidadas. Aqui na cidade também tem cuidado para tudo. Tem caminhão só para pegar o lixo das casas, tem automóvel só para levar as pessoas prá lá e prá cá, tem  jardins e praças, umas tristes outras alegres, tem escolas tão grandes que parecem um castelo. Mas aqui tem muita modernidade que me leva a perceber que fiz a escolha certa. Quero que você seja feliz.

Deolinda. 

Córrego da Passagem, tardinha da sexta-feira, beirando a noite.

Deolinda, minha flor

Li sua carta e não entendi bem algumas palavras e principalmente o sentido delas, aí levei para a Augusta, lembra dela? Minha prima por parte de mãe, para ela me explicar. Ah! Deolinda, ela ficou muito feliz com a sua carta. Disse que ali estava o futuro dela bem na minha frente. Rodei os olhos para um lado, para o outro e não entendi bem o rumo da prosa. Sai mais confuso que que quando fui. Nestes dias a tia e o tio, pais dela, teve aqui em casa e ficou rodeando conversa com pai e mãe. Acho que eles estão querendo casar a moça com alguém da vila, só pode ser isto.

Do seu sempre Zé.

Ribeirão Bonito, 07 de fevereiro

Zé, meu amor,

Não mostre esta carta para ninguém, principalmente para a sirigaita da sua prima. Eu quero que você largue tudo aí e venha para cá imediatamente. Já arrumei um emprego para você, um lugar para morar, e já tracei todo o projeto do nosso destino. Vou mandar um dinheiro para você pela minha mãe, pois se meu pai souber, melhor nem saber. Aí você compra a passagem e vem.

Da sua Deolinda ...

Córrego da Passagem, noite de domingo com lua cheia

Deolinda,

Recebi sua cartinha, fiquei apreensivo achando que você estava passando mal, alguma coisa do tipo. Mas fiquei calado até o dia de hoje, quando a Augusta, o tio, a tia, os primos e até seu pai e sua mãe vieram aqui em casa comemorar meu noivado com ela. Acho que isto está ficando sério. 

Zé.

É isto aí!

2 comentários:

  1. Minas Gerais, 25 de um abril indo embora, de 2017

    Caro Paulo, prolífico narrador dos "causos" de história, política, amor e as outras tantas camadas da vida

    O (ao) Pé da Pitangueira é mesmo sempre uma feliz surpresa, aqui não falta nada. Tem riso, poesia, música boa, conversas a atravessar a madrugada. Quase mando uma missiva para casa, dizendo que me instalei de vez por aqui.
    Muito bom o texto! Deolinda se recuperará, faço votos.
    Ótima semana!
    Amanda

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  2. Querida Amanda,

    Há um pouco de Deolinda em todos nós - aquela pessoa boa que se acha a única correta e há um pouco de Zé onde não nos deixamos ser levados pela onda que passa.

    Como dosar tudo isto? Não sei - existem todas estas regras da vida desde os Dez mandamentos - nascemos bons e o meio nos corrompe? Não sei ainda se é só isto. Há algo mais, um éter a envolver nossas vidas. Mas isto é tema para mais de metro de prosa.

    Um abraço

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