quarta-feira, 12 de abril de 2017

Como nascem os mitos

Detesto rótulos, portanto não me rotule, murmurou baixinho ao ouvido da entrevistadora, e isto é uma ordem.

Entendo!

Entende mesmo? Se está falando só para me agradar, cale a boca e escute.

Certo.

Certo, senhor! É assim que uma moça se dirige a uma autoridade constituída, entendeu?

Sim, senhor!

Ótimo, vamos lá! 

Senhor, quais serão as suas primeiras ações governamentais, se eleito?

Primeiro não existe o "se". Eu sou o eleito, o ungido, o escolhido, o salvador da pátria amada, salve salve lindo pendão da esperança, 

Desculpe, senhor, uma vez tomando posse do que é seu por direito, quais serão as sua iniciativas?

Acabar com favelas, com pobres crônicos, com filas em unidades de saúde e assistência social, eliminar núcleos onde só uma determinada e inferior parcela da sociedade vive sob os auspícios do grande e único poder branco, inteligente, ereto e viril, eliminar adversários e afastar dos amigos.

Alguma coisa poderá ser adiantada sobre o modus operandi destes feitos, senhor?

Não pergunte, e não é da sua conta, pois você ainda está contaminada com o saber destas escolas comunistas de formação acadêmica. Além disto, detesto narcisistas, balconistas, golpistas e falsos moralistas.

Alguma correlação, senhor?

Não me interrompa! Cale a boca e apenas faça a sua função. Eu detesto feministas intrometidas, homens fracos casados com mulheres fartas e políticos polutos.

Mais alguma coisa, senhor?

Sim! Odeio professorazinhas de história, filosofia e gramática, bem como titulados com mestrado e doutorado..  

O senhor teria algo mais a acrescentar, senhor?

Detesto maniqueistas, budistas, sufistas e neurologistas.

Neurologistas, como assim, senhor?

Precisava de uma rima convincente e achei que esta caiu bem.

Ficou bom, muito bom ... gostei! Posso divulgar no grupo de manipulação midiática, senhor?

Pode, mocinha, pode, mas coloca o autor, que sou eu, o único macho alfa capaz de deliciar os prazeres das mulheres desta pátria amada, idolatrada e também o único capaz de silenciar a classe comunista, socialista, contista, rentista, contabilista, esquisita, celetista e empregatícia que assola esta nação

E assim nascem as lendas e os mitos da grande rede vazia de ideias e de conteúdos ,,, 

É isto aí!

2 comentários:

  1. Capitania das Minas Gerais, 12 de abril de 2017

    Caro Paulo, narrador lírico das distopias desta terra

    Sim, os mitos criados se proliferam todos os dias e alcançam mais seguidores (virtuais e desvirtuados) do que artistas pop em redes sociais. Personas que há pouco pareciam completamente inofensivas, saídas de uma comédia de gosto duvidoso, são alçadas, não de repente (mesmo que pareça) a salvadores e herois incólumes.

    É isto aí! Esperando as próximas cenas e um próximo texto seu com o título de "Como morrem os mitos", porque eles morrem...
    Abraço,
    Amanda Machado

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    1. Minas são tantas Minas, quinta-feira santa do Anno Domini 2017

      Prezada Amanda, moça da mais fina candura com as letras

      Mitos até podem morrer, mas não seria uma coisa boa. É melhor que sejam anulados por outros recursos. O homem que aí está se candidatando e se apresentando como Mito não sabe nem por onde passa este processo, mas sua autodenominação simboliza uma mudança, que certamente não passará pela sua trupe.

      Tomo a liberdade de recorrer a Lévi-Strauss, cujo trabalho antropológico que o projetou ao mundo foi feito no Brasil a partir de São Paulo (graças a Mário de Andrade - o único escritor, intelectual e ensaísta brasileiro condenado ao Ostracismo por Vargas, que teve a pena imputada por todos os presidentes até 2003, quando foi revogada por Lula).

      Lévi-Strauss definiu o mito como um sistema temporal relativo concomitantemente ao passado, ao presente e ao futuro, que diz respeito a acontecimentos que, apesar de serem supostos como tendo ocorrido em certo momento, compõem uma estrutura permanente.

      Para ele, o mito tem uma estrutura tanto sincrônica, quanto diacrônica que, apesar de sua permanência ao longo do tempo, traz a possibilidade de mudança.

      Na minha modesta opinião, o auto-intitulado Mito candidato é sincrônico por estar espelhando um processo mundial de discursos e atos neo-fascistas, e diacrônico por que a humanidade está em permanente mutação para definir e se esvair desta lesão da alma que foi o nazi-fascismo.

      Um pouco de antropologia:
      https://www.youtube.com/watch?v=k14zxJHPI0o

      Feliz Páscoa!

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