terça-feira, 11 de abril de 2017

“Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” Heinrich Heine (1797-1856)

Queima Livros pelos Nazistas 1933*
Subi a Colina do Bom Senso buscando uma explicação literária para o que ocorre na vizinhança e o que vejo na terra que tem palmeiras e onde canta o sabiá (e silencia a sabiá) é um fenômeno catártico, ainda não drástico, pelo menos por enquanto. 

Vários elementos se amontoam feitos folhas mortas em ballet de vento, mas são apenas isto - folhas mortas de páginas não lidas que estão sendo queimadas para que a maculada história seja apagada.

Tem um Dorian Gray que sofre muito por entender que sua beleza irá eventualmente desaparecer, e desta forma expressou recentemente o desejo de vender sua alma, para garantir que o retrato, em vez dele, envelheça e desapareça. Assim seguirá uma vida libertina de experiências variadas e amorais; enquanto seu retrato envelhece e regista todos os pecados que corrompem a alma.

Em outro patamar, vem ao caso um Julien Sorel , um jovem que não era alinhado ao establishment, mas que tratou de subir na vida, apesar do seu nascimento plebeu de origem afrodescendente, através de uma combinação de talento, trabalho duro, engano e hipocrisia, apenas por encontrar-se atraído por paixões externas, ocultas e secretas que lhe concedem poder e prazer. 

Falando em poder e prazer, há aqui um plágio grotesco de Fausto, temos o nosso Calabar Caipira, que uma vez pactuado com Mefistóteles para ser feliz ao lado de uma moça bela, recatada e do lar, desejou destruir tudo e todos. Fausto de Goethe foi ao Paraíso enquanto o infeliz e grotesco clone de Calabar é o anti-herói que não tem nenhum interesse de obter passagem ao céu. 

É isto aí!

Sobre a foto postada:

*Fonte - Milton Ribeiro

Entre os dias 10 de maio e 21 de junho de 1933, logo após a chegada ao poder de Adolf Hitler, foram organizadas centenas de queimas de livros em praça públicas com a presença de entusiastas, polícia e bombeiros e representantes do governo.

Tudo o que fosse crítico ou se desviasse da orientação nazista, deveria ser destruído. Os incêndios ocorreram por iniciativa do diretório nacional de estudantes nazistas.

Entre os livros queimados pelos nazistas estavam obras de Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Erich Kästner (que, anônimo, assistia a tudo), Robert Musil, Erich Maria Remarque, Joseph Roth, Nelly Sachs, Franz Werfel, Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx e Heinrich Heine.

Oskar Maria Graf não foi incluído na lista. Seus livros não somente não foram banidos como até foram recomendados pelos nazis. Em resposta, ele publicou um artigo intitulado “Verbrennt mich! (queimem-me) no jornal vienense “Arbeiter-Zeitung” (Jornal dos Trabalhadores). No ano seguinte, foi atendido.

A opinião pública e a intelectualidade alemãs ofereceram pouca resistência à queima. A burguesia tomou distância, passando a responsabilidade aos universitários. Também os outros países acompanharam a destruição à distância, chegando a minimizar a queima como resultado do “fanatismo estudantil”.

Os estudantes e membros das SA e SS participaram destes festins. As entidades estudantis NSDStB e ASTA competiram entre si, numa tentativa de uma mostrar-se melhor que a outra. A maioria dos livros queimados pertenciam à bibliotecas públicas. Eles eram de autores “pouco alemães”. O poeta nazista Hanns Johst foi um dos que justificou a queima, logo depois da ascensão do nazismo ao poder, com a “necessidade de purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã”.



2 comentários:

  1. (sem cabeçalho, porque já lhe mandei correspondência hoje...produz muito, aqui, neste espaço...rs)

    Que texto maravilhoso! Completamente atual e aterrorizante...e que triste é saber quantas pessoas por aqui estão na fogueira neste instante. Sempre queimamos livros, mas agora, me parece que o fogo já está fora de qualquer controle e ninguém tem culpa, não é mesmo? Ou, no caso, os outros têm, mas eles não fazem nada.

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  2. Minas são muitas, quinta feira santa do Anno Domini 2017

    Fogo fora do nosso controle, e não fora de controle. estamos navegando em águas turvas rumo a um neo-colonialismo, fruto da derrocada do império perante as Cortes européias e orientais.

    Os ventos nos empurram para este porto luciferino.

    Maktub - E os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. Mateus 8:12

    Feliz Páscoa, pois somos livres apesar de!

    Paulo Abreu

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