segunda-feira, 22 de maio de 2017

A solidão onírica

Havia conhecido a moça num filme 3D. Apaixonaram-se, entregaram-se e se declararam marido e mulher para sempre, até que certa noite, ao chegar em casa, leu um bilhete colado na porta dizendo adeus e ela sumiu de forma tão misteriosa quanto era a relação entre os dois.

Bebeu todas as garrafas que restaram. Nem eram tantas, mas sozinho fez virarem uma tentativa de coma alcoólico. Deitou sobre o catre que restou da separação. Por sobre ele um edredom surrado que encontrou no piso da cozinha. Como travesseiro uma jaqueta jeans muito desgastada e como coberta um fino lençol de fibra sintética.

Acordou com estômago embrulhando, cabeça explodindo, câimbra nas duas panturrilhas, náuseas, ânsia de vômito, vertigem, confusão mental e ... sobretudo sozinho. A noite anterior não havia devolvido o que a vida levou. Rodou com a mão, encontrou o celular e viu cerca de vinte chamadas, tentou retornar, eram todas de um mesmo número, só podia ser ela, arrependida e pedindo para voltar. Retornou a ligação, mas ... estava sem crédito e o número não aceitava chamada a cobrar.

Arrastou-se até a dispensa ... praticamente vazia. Achou uma fração de açúcar cristal disputado por formigas, espalhou por sobre um banco improvisado de mesa, matou quantas pode e aos poucos foi dissolvendo a sacarose na boca ressecada. Era um truque antigo aquele, aprendeu na mocidade. Vai molhando o dedo na boca e catando o açúcar, assim a vida segue sua rotina. Refeito da hipoglicemia, dirigiu-se ao banheiro, onde apenas o cano saia da parede, servindo como pia e ducha gelada naquela manhã de inverno. Queria morrer ... se pudesse.

Banhou-se e ao mesmo tempo hidratou as células que perderam líquido para o álcool. Hidratado e glicosado, fez num café com a borra que estava no coador. Ainda dava um rescaldo, pensou. O estômago não aceitou bem aquela encomenda, mas não devolveu, afinal a cabeça tinha prioridade sobre a gentileza e a delicadeza do sistema digestório.

Vestiu a roupa amarrotada e quase limpa, esfregou o indicador nos dentes com bicarbonato de sódio, calçou o sapato desbotado, colocou seu rayban tailandês e foi à luta, que não passou do portão do prédio. Havia um oficial de justiça requerendo o despejo. Olhou para o oficial, olhou para o documento, enfiou a mão no bolso e entregou-lhe a chave às gargalhadas.

Atravessou a rua, fez aceno para o ônibus e subitamente acordou com a campainha tocando de uma forma insistentemente irritante. Já vai, já vai ... gritou provocando um silêncio irritante no apartamento. Pelo olho mágico viu uma mulher estonteante no corredor. Ao destravar a porta entrou um oficial de justiça e dois policiais aos berros e aos empurrões. 

Antes de atingir o chão a moça do filme 3D o segurou. Acordou completamente suado, esgotado, arfante. Ela não estava ao seu lado, nem havia bilhete de abandono, nem um oficial, nem batidas na porta nem nada. Só a solidão, a infinita e perturbante solidão. Desejou profundamente voltar ao sonho e encontrá-la. 

Naquela noite foi ao cinema. Então era isto - era mocinha na tela, a personagem, foi tudo um sonho, então desta vez acordou e lá estava a moça abraçada ao seu corpo feito uma extensão da sua alma. Jurou para si que estava morto, vai ver estava mesmo. Nunca mais sonhou em 3D.

É isto aí!

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