quinta-feira, 20 de julho de 2017

Autumn leaves

A echarpe azul daquela noite de verão


Eu era delegado numa cidade pequena, de vinte mil pessoas que se conheciam. O trabalho era tranquilo, sem maiores complicações. No último verão, calor insuportável, três horas da manhã num plantão normal na delegacia. - dois bêbados, um ladrão conhecido e uma mulher exibicionista e foi só. Silêncio suficiente para todos dormirmos em paz, apesar do calor insuportável.

Naquela época ocorreu a derrubada da prefeita eleita só pelos pobres, e por causa disto lotou a prefeitura de criaturas estranhas, mal vestidas e esquisitas. Depois de um dia intenso de comemorações com desfile do Grêmio pela Tradição e Família, pelo Grêmio Literário, A Associação pelas Amigas da Fé, a Liga dos Amigos do Truco, das crianças e dos heróis da cassação, a cidade parecia querer descansar.

Até que ...

O telefone me acordou de sobressalto. Era do hotel. Levantei e a guarnição de um cabo e dois soldados já me esperavam na porta. Fiz sinal para que dois ficassem e fui com o Nestor, um cabra dos bons. Afinal, pensava enquanto atravessava a praça entre a delegacia e o estabelecimento, o que poderia ter acontecido no hotel de tão grave assim?

Martinelli, um italiano hipercinético, era o proprietário e de longe já acenava desesperado para que eu acelerasse o passo. Pedi ao soldado que retornasse com todos os reforços disponíveis. Comecei a ficar preocupado. Martinelli era um velho amigo, gordo, cabeleira branca, jogador de truco e contador de casos. Fora viajante por 30 anos, até que num choque de realidade, descobriu-se só, longe 30 anos da família, não conhecia os filhos e a esposa para voltar para casa, pegou o que sobrou da partilha do divórcio , comprou a propriedade e juntou-se à Margareth, que era a moça que gerenciava o hotel. Desde então o italiano virou patrimônio da cidade.

O hotel era um sobrado que no passado fora sede da fazenda do Coronel Bezerra, dono de tudo e de todos - O andar superior era todo avarandado, com 12 quartos, sendo seis com banheiro interno e os outros seis utilizando os dois banheiros que foram adaptados no final do corredor, onde antigamente era uma sala reservada. Na parte de baixo a cozinha imensa, a dispensa, os quartos dos empregados, uma copa muito grande, duas salas e a recepção.

Doutor, o senhor não vai acreditar, disse-me em tom de desespero enquanto subia arfando a escada de acesso aos quartos. Abriu a porta do número 7 e deixou que eu entrasse. De arma em punho fui observando o ambiente até deparar com Dona Amelinha nua, inerte, pálida, fria e morta por sobre a cama. Dona Amelinha era a professora mais antiga do lugar, filha caçula do Coronel Bezerra, e tinha uns 70 anos pelo menos, pouco cabelo e uma face sem rugas.

Virei para a porta e indaguei gestualmente ao Martinelli o que significava aquilo. Ele fez sinal para que o acompanhasse, atravessamos o corredor e entramos no quarto da frente, da ala sem banheiro. Ainda assustado, explicou que na noite anterior o Doutor Bernardes, médico decano da região, casado com Dona Glorinha, beata medalha de ouro, dera entrada no hotel com a desculpa do Truco e subiu ao apartamento 7. Logo em seguida Dona Amelinha, como de costume, entrara pelos fundos e subira para terem seus momentos íntimos de prazer, iniciados quando ela enviuvou há 35 anos atrás.

E cadê o Doutor Bernardes? - Fez sinal com o indicador para que o acompanhasse. Seguimos o longo corredor até os fundos do hotel, onde jazia nu, em estado priápico, com a cabeça suavemente encostada na grade de madeira que contornava toda a varanda da casa, de tal modo que parecia estar cochilando. Olhei para baixo, não vi nada fora de ordem. Havia uma echarpe azul presa à mão do falecido. Pressenti que a conhecia, mas até aquele instante tive dúvidas - não pode ser ... pensava.

Retirei com cuidado a peça da mão do falecido, e senti no ar o mesmo perfume que me trouxe lembranças gozosas de um passado não muito distante. Veio a percepção das coincidências desconcertantes - eu conhecia a dona daquela echarpe. De uma excursão ao Paraguai a conheci, apaixonei, comprei-lhe a echarpe e um perfume francês. Tempos depois nos encontramos aqui num evento social, casada e ... bem ... não pode ser ... será?

Depois das fotografias, pedi que vestissem o Doutor e o colocassem no térreo, na sala do Truco, enquanto a Dona Amelinha deveria permanecer na cama onde faleceu, na mesma casa que nasceu. Afinal ninguém precisava saber dos detalhes, já que não havia marcas de violência, sinais de luta, e nem sintomas de envenenamento. Fui à casa do médico, onde insistentemente bati a campainha, e nada. Ouvi um barulho de queda ou salto, corri para os fundos da casa e segurei Agenor, o barbeiro, semi-nu, se apressando para sair do ambiente. Era um mulato franzino, pobre e muito falante, da turminha miúda da ex-prefeita.

Esperei que vestisse a roupa, algemei e o entreguei ao Cabo para levar à delegacia, enquanto entrava na casa em total silencio. Doutor Bernardes tinha três filhos, todos residentes na capital, uma moça e dois rapazes, curiosamente bem feios. Subi os degraus tenso. No quarto do casal, sob a coberta, com a TV ligada e cara de assustada, estava Dona Rita de Cássia, morena de corpo interessante, com uns quarenta anos, desposada do Doutor quando este enviuvou de Dona Geraldinha, que morreu de câncer. 

Dona Rita, séria, moralista, catequista da igreja e presidente do Grêmio da Tradição da Família Cristã ficou espantadíssima com minha presença. Fiz sinal de silêncio com o indicador à boca, caminhei até o banheiro, que estava vazio, percebi a janela fechada, destas italianas de guilhotina e veneziana. Deduzi que esteve sempre fechada. Fiz novamente sinal para que ficasse quieta.

Sai e fui para o quarto do fundo do corredor, com dona Rita atrás de mim, colada nas minhas costas,  com uma camisolinha - hummm, que delícia, Dona Rita!!!! - aquilo de certa forma mexeu comigo, sei lá.

Fui abrindo a porta devagar e deparei com a filha do médico, feinha, coitada, meio sem graça, meio sem entender nada, com uma toalha no cabelo e um roupão sobre o corpinho seco, saindo do banheiro. Entendi a situação vendo a janela aberta e foi dali que o suspeito pulou para escapar do delito, pensei.

Dona Rita não sabia que ela havia chegado e ela não sabia que Dona Rita estava na casa. Voltei os olhos à ela, guardei a arma e dei a notícia. Não chorou e nem sorriu, ao contrário da madrasta que fez pranto antes de terminar a frase. Logo deduzi que a feinha poderia estar mancomunada com o suspeito em agora provável crime com duas vítimas fatais.

Fui para a delegacia. Agenor estava desesperado. gritando - me larga, sou inocente, eu não fiz nada, enfim, aquela cantilena de todo suspeito que deve. Mandei recolher para averiguação além do crime de adultério, já que o suspeito era casado. Determinei a apreensão do Renatinho, um negão corpulento faz-tudo, que dormia na praça, e que deve ter sido cúmplice para dar uma provável cobertura ao suspeito dos supostos crimes.

Sentei na cadeira e dormi com a echarpe na mão. Tive sonhos fantásticos e ao mesmo tempo estranhíssimos. Acordei às seis horas com o agente funerário educadamente batendo à mesa, para que eu pudesse responder sobre o atestado de óbito, já que o falecido era o emissor oficial da cidade.
- Fonseca, eu disse ao agente funerário, liga para o Doutor Safrinha, sabe? - então, liga para ele e pede os atestados de óbito, fala que os falecidos morreram sem assistência médica e que ele deixe a causa mortis em branco, sei lá, vai que tem alguma coisa que a gente não sabe. Mas bico calado, Fonseca, bico calado. Fala que preciso para hoje ainda, e que é um pedido meu, fala assim que ele atende.

Doutor Safrinha era filho e neto dos Doutores Safra, os mais famosos médicos da região, nascidos e instalados na cidade vizinha, e tinha a mania de promover festas não convencionais na fazenda herdada do avô materno, localizada na minha jurisdição - festas Rave, doutor, tem nada de mais, festas rave ... e ria descaradamente. E graças à natureza ácida, digamos assim, destas festas, eventualmente eu, em nome da amizade, resolvia pendências inerentes ao êxtase da garotada.. 

Resolvida esta questão legal, cheguei na porta da delegacia e vi o aglomerado de curiosos, amigos e parentes dos dois falecidos, na porta do hotel. Observei com atenção atravessarem toda a extensão da praça o dentista, Doutor Juan Benitez Mendoza, um boliviano de etnia guarani, impecavelmente de branco e ao seu lado a estonteante paraguaia Jovencita Paloma Bianco, ou Palomita, como gostava de ser chamada.

Palomita era promoter, cantora, bailarina, artista plástica, instrumentista, professora de Tai-Chi e Muay Thai no Clube da Família. Todas as festas e solenidades municipais passavam por ela, sem exceção. E tinha uma voz, que voz! E tinha um corpo, que corpo! E tinha um jeito, que jeito! E um balanço, que balanço! E umas coxas, que coxas! Enquanto atravessavam a praça, ela de braço dado ao dele, olhou para mim, como perguntando algo, eu respondi acenando com a echarpe. 

Dona Amelinha foi enterrada ao meio dia em ponto, com os sinos repicando o luto da cidade. As crianças do Coral da Escola Municipal Coronel Bezerra cantaram músicas de roda, hinos religiosos, o padre fez um discurso emocionado, bem como a diretora, o prefeito, três vereadores e o presidente do Grêmio Literário. O calor sufocante não foi capaz de dispersar aquela multidão tamanho o carinho com a beata, casta e dedicada Dona Amelinha.

Doutor Bernardes teve o cortejo saindo da sua casa sob intensa chuva de verão, das piores tempestades dos últimos anos - não faltaram raios, ventania, trovões assustadores e carpideiras à frente do féretro. Estranhamente seus dois filhos não vieram e nem deram satisfação à madrasta. Doutor Ernesto, em vida, já havia passado a casa para ela, bem como o sítio e os dois carros, além de uma pensão satisfatória. O corpo deu seu último passeio por quase todo centro, entre silêncio de uns, prantos contidos de outros e chuva, muita muita chuva.

Não demorou quinze minutos depois do meu retorno à delegacia para receber Palomita - madre de dios - que mujer ... que mujer ... trazia sobre seu escultural corpo, um vestido de algodão puro em renda, valorizando toda a obra prima que a natureza esculpiu ... que mujer ... que mujer ... tirei a echarpe da gaveta e a indaguei com os olhos.

Sua boquita de cereza tremeu, mas dos seus lábios, sob a melodia da sua voz e com seu delicioso sotaque paraguaio, foi narrando o que a sua echarpe fazia na mão do falecido. Bem, doutor, tudo começou quando o pão-duro do Kaká marcou uma sessão terapêutica  comemorativa da sua posse, comigo no hotel, e como ele é conhecido pela sovinice, talvez pela origem libanesa, nunca se sabe, ficamos na ala sem banheiro. 

Kaká do Quibe? Você estava com o prefeito? Com o nosso prefeito?

Isto, exatamente isto. Ao sair para me lavar, enquanto o pão-duro se arrumava, Doutor Ernesto abriu a porta, nu, com o visível processo da ação farmacológica de determinado medicamento comprado hoje na farmácia do Parreira, bem na minha frente, sem nenhum pudor e ainda fez piadinha comigo, velho assanhado - Palomita era rica em detalhes e isto ajudaria muito.

Então quer dizer que o Parreira, aquele comunistazinho de merda vendeu este medicamento ao Doutor Ernesto, hem? Onde vamos parar. Bem, prossiga, Palomita. 

Eu corri para o banheiro e ele veio atrás de mim, meio cambaleante com a mão no peito e puxou minha echarpe, foi quando teve ou já estava tendo um ataque cardíaco e foi encostando na grade com os olhos arregalados, parecia que babando, ou tentando falar algo, tipo ai que dor ... ai que dor ... acho que era isto ...

Diga uma coisa, Palomita, isto é muito importante, por acaso ele não teria dito Agenor??? Pense ... você não domina plenamente o português. Quem sabe se enganou?

Pode ser, o Kaká já estava lá quando ele ficou repetindo sei lá o que "ôr". Aí o Kaká me puxou depressa, saímos pela escada de serviços. Só de manhã que fui entender que ele deve ter feito um quadro de pânico ao ver que a Dona Amelinha havia morrido e saiu para chamar alguém para ajudar a socorre-la. Foi isto.

O Kaká pode confirmar isto?

Ele está lá fora, o senhor quer falar com ele agora? Pergunta para ele se ele lembra se o Doutor não disse Agenor . Só isto, depois se ele tiver tempo, passa aqui e confirma comigo.

Agora, apesar de não ter provas, eu tinha a convicção de que o Agenor foi contratado pelo Parreira, e teve a cobertura do Renatinho faz-tudo para liquidar a vida de dois dos maiores heróis da derrubada legítima da impostora. Mandei recolher o Parreira para averiguação. O boato, de que os dois foram vítimas de uma trama macabra, não sei como, vazou para a cidade, e acabou que os homens de bem em quantidade enorme, mascarados, invadiram a delegacia num momento de fragilidade na segurança e fizerem a justiça divina contra os assassinos nefastos e perigosos. Finalmente a cidade estava definitivamente livre de comunistas, bandidos e corruptos.

Naquela noite eu fui para a casa do falecido Doutor Ernesto para consolar a Dona Rita, pensando na Palomita ... e depois voltei, voltei de novo, de novo, até não precisar mais sair de lá. E a Feinha já havia retornado para a capital, será que foi ela a mentora que financiou o duplo homicídio? Depois eu penso nisto. 

É isto aí!

Gipsy Moon - "Dark Eyes"

terça-feira, 18 de julho de 2017

Qual é o sentido da minha vida?

Num momento zero qualquer questionei em sendo a morte uma coisa a ser definida em vida, enquanto a inteligência artificial científica avança inexoravelmente no sentido contrário, qual seria o sentido da minha vida? 

Qual é o sentido da vida? 
O planeta está dividido em crenças, para ficarmos apenas nas quatro maiores que somam 5,5 bilhões de pessoas vivas (hinduísmo, budismo, islamismo, cristianismo), apresentando facções, grupos, sub-grupos, neo-filosofias, neo-teologias, etc.  

Qual é o sentido da vida? 
O mesmo planeta está dividido em três atores principais, cada um defendendo de uma forma imposta, na maioria das vezes repressiva, os seus dominados, que sem opção de escolha são aqueles que os dominantes julgam serem inferiores aos seus super poderes de destruição em massa (literalmente).

Os reprimidos não têm direitos, mas há aqui um fator interessante - os repressores oprimem tanto os reprimidos externos quanto seu próprio povo - esta é uma intensa gravidade deste sentido da vida - a repressão e a opressão estão juridicamente e militarmente democráticas sem as peculiaridades demográficas, dependendo do grau de interesse do dominante.

Qual é o sentido da vida? 
O planeta tem ódio racial tão grave quanto ódio religioso. Pessoas de um mesmo credo são capazes de não dividirem a mesma chama salvífica pela cor da pele. Imagine só - sob a pele a mesma natureza, mas sobre o corpo espécies distintas - uma pele, um manto de 0,5 a 6 mm de espessura é a capa da invisibilidade para uns e o manto real glorificado para outros.

Qual é o sentido da vida? 
Tráfico de seres humanos vivos para os mais distintos interesses (sexo, escravidão, servidão, sadismo, pedofilia, etc). 

Tráfico de órgãos de seres humanos para salvar (?) vidas. É claro que não se faz um tráfico de órgãos sem se conhecer o histórico clínico, bioquímico, genético e anátomo-patológico do doador previamente (opa, como, quando e de que forma se dá isto?)

Tráfico de drogas lícitas, ilícitas, alucinógenas, abortivas, excitantes, anti-depressivas, erotizantes, etc - exploração do mal estar da civilização pelo vazio existencial da busca pelo sentido da vida. 

Tráfico de influência, de ciência, de domínio, de tecnologia, de idiotices, asneiras, barbáries, transgressões, sentenças, denúncias, delações, relações, tráficos de tudo e de todos.

Tráfico de informações confidenciais - nossa vida é um livro aberto para o sistema cibernético. Tudo que somos, fazemos e temos está lá em algum ponto da deep web, sob um código binário, aguardando a necessidade de ser utilizado.

Qual é o sentido da vida?
Partidos políticos são ingredientes de um mesmo bolo, o bolo do poder, o poder que não pondera, o poder que é o sentido da política, que influencia todos os desejos da vida. Poucos bebem da água limpa, alguns morrem de sede, outros vivem das gotas que caem dos seus senhorios. Não existem partidos bons, existem os que aliam interesses sociais e econômicos em concentrações distintas que podem agradar este e desagradar aquele. É um sem sentido que busca algum sentido para segmentos.

Qual é o sentido da vida?
Amar é um verbo transitivo direto da primeira conjugação, que pode promover vida ou morte. A vida pode ser eterna ou durar 15 minutos, e a morte pode ser fisica ou psicológica.

Amar perdeu o significado que nunca teve. Ao ser humano, as relações biológicas, tal qual a religião, foram se subdividindo como processos filosóficos intuitivos, processos sociais ou algo neste sentido.

Hoje, e este hoje se estende há pelo menos cem anos, o sexo refere-se como um ato de amor, as relações cis e trans (entre si e per si) - efêmeras, ao acaso, contratadas ou segmentadas se engalfinharam como e por atos que se autodenominam amor - as paixões se tornaram atos de amor, bem como as delações, as prendadas belas e recatadas do lar, o cartão de crédito, Paris, tudo virou um suco de amor - de repente, não mais que de repente o amor é como uma estação florida no meio do deserto, uma moda primaveril em pleno inverno.

Em qual sentido tomou o rumo do amor próprio, do amor ao próximo, do amor que dói? Perdeu-se ou perdemos a Dor por se tratar de rima pobre? Escondeu-se pela ineficácia de recursos humanos pós-internet? Este adjunto adnominal estaria escondido das redes sociais para ser eliminado por abandono ou para nos preparar para a mecanização da vida? Qual o sentido destas relações assépticas, sem dor? 

Qual é o sentido da vida?
Ao passo que apostos e vocativos têm crescimento exponencial, o eu vai desaparecendo. Cada vez mais as pessoas precisam que seu nome esteja vinculado ao sentido das suas ações reais ou virtuais, já não mais se distinguem, mas apresentam-se online maiores que sua própria vida.

Qual é o sentido da vida quando um filho morre?
Qual é o sentido da morte quando um inimigo nasce?
Qual é o sentir do sentido da vida na morte e o sentido da morte na vida?

É isto aí! 

Tu estás aqui - Ruy Belo


TU ESTÁS AQUI 
Ruy Belo*

(obs - está mantida a forma original escrita pelo poeta)

Tu estás aqui
Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
                                                                                                          o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
                                                                                                        outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso 
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
                                                                                              que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
                                                                                               outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto 
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto 
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos 
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
                                                                                                          a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui 
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui.

*Ruy de Moura Belo (1933-1978) foi um dos maiores poetas portugueses do século XX. Nasceu em São João da Ribeira, Rio Maior, e faleceu em Lisboa. Doutorou-se em Direito Canônico na Universidade Gregoriana, em Roma, e licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa. 

Discutindo relação no tempo das cartas

10 de janeiro

Querida Julinha, cheguei bem, amanhã mesmo começarei o treinamento da gerência, vou ficar famoso, rico, e terei você nos meus braços eternamente. Eu te amo.

17 de janeiro

Legal Maurício, tomara que dê tudo certo.

24 de janeiro

Querida Julinha

Que bom que tenho você para ler minhas cartas. Eu nunca irei perder a paciência diante do teu amor. Tomara que dê tudo certo.

31 de Janeiro

Legal Maurício, tomara que dê tudo certo e você possa levar a sua mãe para cuidar de você.

07 de fevereiro

Querida Julinha, tudo aqui é muito bem estruturado. A empresa vai ampliar sua ação para nível regional, e aguardarei o convite para ficar mais perto de você. que é uma das vagas mais disputadas e difíceis do mundo. Eu te amo e por você estou aqui para ser rico e famoso. E achei legal você querer minha mãe por perto - eu te amo demais!!!!

14 de fevereiro

Prezada Julinha, deseje toda a sorte do mundo para que eu consiga esta oportunidade. Puxa vida, eu, você e mamãe juntos - eu nem acredito. Te amo!

28 de fevereiro

Julinha, eu consegui a promoção. Estamos praticamente juntos daqui para a frente, meu amor!

07 de março

Maurício, eu mudei de cidade, de estado, de país e de planeta - que saco.

14 de março

Júlia, cansei, quer saber, vai para os quintos dos infernos, eu gostei tanto de você, mas tanto que esse amor virou um ódio, que muito provavelmente será eterno, mas eu também quero que você se dane, sua vagabunda.

21 de março

Maurício, leva as suas irmãs barranqueiras para o quinto dos infernos, junto com a vadia da sua mãe.

28 de março

Olha aqui, Júlia Andréia, que nomezinho de merda este, hem ... daqui a quinze anos eu vou estar andando de carro chique, possante e caro e você vai estar gorda, sentada numa cadeira de fio de nylon na calçada, fofocando com as amigas gordas.

04 de abril 

Maurício Gillete, nome mais boiola do mundo, sai fora, me erra, me esquece, muda de destinatária, se é que gosta de mulher.

11 de abril

Júlia, sua bandida de zona, você vai acabar casando com seu cafetão por causa de uma gravidez supostamente dele e depois que sua filha quenguinha nascer, ele vai meter o pé na sua imensa bunda e aí, só aí, você vai pensar com arrependimento tardio como foi má a ideia de abandonar o seu Mauricinho - ele agora está lá naquela casa maravilhosa, cercado de mulheres lindas e eu aqui sem presente e sem futuro - e não é Gillete, é Guillet, sua vaca.

18 de abril

Hummm, o coisinha ficou nervosinho .... rá rá rá rá rá - não estou gargalhando, é minha AK47 contra idiotas, imbecis e retardados. Vai ver se estou na esquina, Gilletão ... 

25 de abril

Júlia Andréia, um dia você entrará na rede internacional de fast-food na qual eu trabalho, exatamente na loja que eu gerencio, não é sua cachorra? - daí você me verá todo alinhado, de uniforme clássico, e você aquela massa em deslocamento, parecendo uma nave mãe, então eu educadamente terei o prazer de pagar um especial duplo com molho barbecue, fritas inglesas e refrigerante para você, só para se sentir mais humilhada ainda.

02 de maio

Maurício, tudo bem, tudo bem ... mamãe não irá morar com a gente.

09 de maio

Marca a data, meu amor, que dia 11 estarei aí com as alianças, eu te amo, Julinha!!!

É isto aí!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A neo-jurisprudência, a pós verdade e a condenação limbica

Palácio Real da Justiça do Reino da Pitangueira
Considerando ser razoável a penalização por suspeita, indícios, ódio visceral ou testemunhos públicos com interesses privados;

Considerando o século XXI poder ser alterado para XIX apenas mexendo um pauzinho e continuar sendo duplo X

Considerando a neo-jurisprudência, a pós verdade e a condenação límbica;

Considerando a possibilidade da Daenerys Targaryen, Filha da Tormenta, a Não Queimada, Mãe de Dragões, Rainha de Mereen, Rainha dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Quebradora de Correntes, Senhora dos Sete Reinos, Khaleesi dos Dothraki, a Primeira de Seu Nome.e Ultima descendente confirmada da Casa Targaryen. não ser isto tudo que ela diz ou se auto-intitula ser;


O Tribunal de Causas por Modalidade e Lateralidade da Corte Real do Reino da Pitangueira, da qual exerço monocraticamente o pleno direito de redigir, executar, julgar e condenar, declara a penalização por suspeita e indícios como patrimônio cultural do direito pátrio deste reino, inserida no Novo Códex, obedecendo aos seguintes critérios, sem direito a questionamentos da plebe:


Canalha 1 ano de liberdade condicional com tornozeleira fura fila.
 Bandido 0 a 30 anos, depende de variáveis do sentimento meritocrático
   Safado 0 a 2 anos (depende muito da cara do sujeito)
    Mercenário Inocente - é trabalhador até que a mala os separe.
     Meliante 15 anos para os mesmos .e Tornozeleira Fura Fila para lapsos de memória 
      Golpista Se se golpeia a favor não se golpeia, mas para a plebe 19 anos
       Alcoviteiro Isento de penalidade
        Biltre 3 meses (que nojo)
         Cafajeste depende de variáveis do sentimento meritocrático
          Velhaco depende de variáveis do sentimento meritocrático
           Beócio Só os suspeitos da desordem inconstitucional 1 a 3 anos
            Calhorda Pena social
             Desprezível Tornozeleira Fura-Fila
              Energúmeno Passível de Passe Livre
               Desatinado Coitado ... ele não sabe o que tem na mala.
                Janota depende de variáveis do sentimento meritocrático
                 Casquilho Só "aqueles" - 12 anos. 
                  Espinicado Foda-se
                   Mentecapto Incapaz, mas se fingidor denunciado pelo Jotaene - aí 12 anos.
                    Mequetrefe Só os pervertidos. Os pilotos de aviões e helicópteros estão fora.
                      Insignificante Isento
                       Mocorongo Multa de mil reais por cada aparição pública até escafeder-se
                        Cafona Obrigado a assistir aula de boas maneiras e vestuário prefake.
                         Paspalho Opa, estes são nossos, não mexe.
                          Inútil Os úteis são naturalmente isentos 
                          Tolo depende de variáveis do sentimento meritocrático
                           Petulante Quando adversários, 30 anos, os demais Tornozeleira Fura Fila
                            Palerma Opa, em se tratando de reincidentes, tornozeleira fura-fila ou exílio
                             Idiota depende de variáveis do sentimento meritocrático
                              Imbecil com ódio 30 anos, sem ódio uso tornozeleira socialight
                               Parvo suspeitos de crime contra a pátria 45 anos sem apelação
                                Patife 0 a 20 anos  - meritocracia, QI, filiação, etc
                                 Desavergonhado depende de variáveis do sentimento meritocrático
                                  Indigno Ver QI, mas negociar perda patrimônio dos outros por delação
                                   Débil depende de variáveis do sentimento meritocrático
                                    Medroso Quem tem cunha tem medo - isento
                                     Covarde Ninguém pode produzir provas contra si
                                       Pulha Só os incautos sem sentimento meritocrático
                                        Purgante Tribunal especial com recursos intermitentes
                                         Sacripanta Prisão perpétua ou liberdade caribenha, depende muito.
                                          Abiscoitado 12 anos sem recurso
                                           Pentelho Dos homens bons, normal, demais de 5 a 10 anos.
                                            Prevaricador Filme 3D, 15 testemunhas e 36 fotos analógicas.

É isto aí!

Este Lugar Não Existe (Herberto Helder)



Poema de Herberto Helder (in “Apresentação do Rosto”, Lisboa: Editora Ulisseia, 1968)
Dito pelo autor* (in EP “Herberto Helder: Poesia Portuguesa”, Philips 431 999 PE, 1970)

Este lugar não existe,
fica na Arábia Saudita,
no deserto.

Gosto do deserto.

Levei tábuas e pregos.
Ferramentas,
as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos
— também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.

Não me lembro se fui pelo ar.

Não me lembro da lenta e progressiva despedida,
quando se anda pelas terras,
o labirinto doloroso,
a alegria, quando se vai pelas terras,
e nos despedimos, primeiro de um corpo,
depois de um sítio,
depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes,
os sinais, as palavras, as temperaturas.

Não me lembro de quando se vai deixando.

Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes,
ferramentas — as belas ferramentas.

Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.

Vamos lá ver esse lugar que não existe,
na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom — há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.

Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos,
nem sementes de cores,
das cores que amamos com uma dor no corpo.

Eram sementes de cabeças de crianças.

Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias,
e depois com os meus ouvidos
e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos
tirei a minha ciência dos desertos.

Espalhei os dez dedos pelos dias
e, primeiro, criei os céus e as areias
daquele lugar que não havia.

Depois, os dois luzeiros:
um para o dia
e o outro para a noite do deserto.

No terceiro dia,
fiz uma casa com um alpendre
e uma cadeira no alpendre.

Foi então que senti o sangue bater na minha noite
e soube do sinistro silêncio
de toda a minha vida, e era o quarto dia.

No quinto, lancei às areias,
a toda a volta da casa,
até onde podia,
todas aquelas sementes
que não eram de cravos,
nem de trigo,
nem de algodão
— as sementes — lancei à minha volta o futuro nascimento,
e fiquei no meio do nascimento,
cercado pelo futuro nascimento.

Depois pensei,
como pode pensar um animal criador extenuado,
porque eu tinha-me criado a mim mesmo,
e era uma criatura quente e exausta,
e estava cheio da dor e da alegria da minha obra
— era então o sexto dia.

E no sétimo dia
vi que tudo tinha um sentido,
e sentei-me na minha casa,
no meu alpendre,
na minha cadeira.

Pela escrita
tinha eu pois chegado ao sétimo dia,
ligando tudo,
ligando o que não é como que visível
mas é como que audível,
semelhante às correntes de água subterrânea
que o nosso próprio corpo solitário
sente deitado sobre a terra.

Estava sentado na cadeira
criada no terceiro dia,
rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.

Não eram.

Porque principiaram a sair da areia
na tarde do sétimo dia,
e floresceram,
sombrias e doces cabeças de crianças
— era terrível.

Seriam verdes-garrafa?

Cabeças de crianças
do tamanho de cabeças de crianças
— vivas, oscilantes,
latejantes sobre o pedúnculo que irrompia do deserto,
à volta da minha casa,
do meu alpendre,
da minha cadeira,
do meu coração
que nunca mais dormiria.

Começaram então a sussurrar
— e eu pensei:
a aragem do fim do sétimo dia
passa sobre um campo de corolas verdes,
como no mundo,
e há o sussurro vegetal,
o ondular verde-garrafa,
em frente da casa de um proprietário
como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.

E as minhas tábuas e pregos e víveres,
a minha água e a cadeira,
e o meu coração
estavam cercados
pelo sussurro das cabeças das crianças.

Eu nunca mais dormiria
— era de noite,
era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar — na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira,
no alpendre,
na casa
— e as vozes levantavam-se,
eram altas, altas,
inocentes e terríveis,
cada vez mais belas,
mais sufocantes.

No deserto.

O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.

Eram cabeças de crianças.

Mozart - Lacrimosa

Lacrimosa dies illa
Qua resurget ex favilla
Judicandus homo reus.
Huic ergo parce, Deus:
Pie Jesu Domine,
Dona eis requiem. Amen.

Dia de lágrimas aquele
Em que ressurgirá das cinzas
O homem para ser julgado
Tende, pois, piedade dele, ó meu Deus!
Ó misericordioso, Senhor Jesus
Concedei-lhe o repouso eterno. Amém


terça-feira, 11 de julho de 2017

Nota de Falecimento

Noticiamos o falecimento da dignidade do trabalhador da Pátria Tupiniquim. Morreu numa tarde de inverno, assassinado sem luta, sem tiros, sem punhais ou espadas. 

Evoluiu ao óbito pela covardia de uma classe ergonomicamente curvada aos interesses do capital contra as necessidades básicas humanas. Foi a covardia, o cinismo, a hipocrisia e sobretudo a soberba, os agentes letais da sua morte.

O Serviço Funerário informa que não houve ódio no ato, nem agressões sexuais, nem perversões, nem mutilação de órgãos, nem decepação, nem constrangimento, nem rancor, nem remorso, nem nada. Não houve nada, por que de onde veio a ordem, de onde veio a determinação, vem junto o mal, não um mal qualquer, mas o mal no que se refere ao que ele realmente é. E este mal determinou que não se pode dividir este país com um povo mestiço, mulato, negro, quase negro, quase branco, pardo, índio, meio índio. O mal determinou que aqui agora é de domínio de uma classe superior, branca, perfumada e drogada.

O Serviço Funerário informa que o féretro será enterrado em urna lacrada junto aos seus pertences, tais como fundo de garantia, décimo terceiro, piso salarial, dissídio coletivo, justiça trabalhista, hora extra, assédio moral, assédio sexual, educação pública e outros de menor valor de estimação. 

Comunicamos que por questões de ordem pública não haverá orações, nem rezas, nem despedidas, nem discursos, nem direito ao adeus, nem cortejo, nem cantorias, nem velas, nem carpideiras, nem padres, nem pastores, nem amigos, nada. Só o sarcasmo está autorizado a se manifestar.

Enfim, este dia está marcado para sempre como o dia mais triste de todos os dias tristes da história do trabalhador honesto deste país.

É isto aí!

Orgulho danado destas senadoras!


O presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB), suspendeu a sessão aberta para discutir a reforma trabalhista após senadoras da oposição ocuparem a mesa do plenário, onde fica a cadeira do senador, e se recusarem a deixar o local; as senadoras oposicionistas que ocuparam os lugares na mesa são: Gleisi Hoffmann (PT-PR), Lídice da Mata (PSB-BA), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Fátima Bezerra (PT-RN) e Regina Sousa (PT-PI); as luzes da Casa foram desligadas e a transmissão também foi suspensa; oposição acusa Eunício de impedir o debate




Smile (a cappella)


Smile is one of my favorite songs of all time, and I’ve always wanted to arrange it. Today seemed like a particularly apt day to bring a little sunshine to everyone, so at the last minute I decided to get a little crew together to make it happen. 

Please enjoy our video, you can download the track and sheet music for free here: https://app.box.com/s/97tirdfji9bucmt...

I’ll be donating to Planned Parenthood, ACLU, and Everytown for Gun Safety in honor of this song and I hope you'll join me by donating to an organization of your choice. Here are some ideas: http://www.papermag.com/progressive-c...
Much love to everyone!

Soprano: Erin Bentlage
Alto: India Carney
Tenor: Kenton Chen
Bass and arrangement: Ben Bram

Filmed by Ryan Parma
Mixed by Ed Boyer
Edited by Alex Green

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O mel, o céu e o lagar

Eles só dormem agarrados
num quarto e sala conjugado
de um conjunto popular

Ele de bermuda rasgada
ela de cabelo escovado
e camisola noir

Ele tem sono pesado
Ela sonha acordada
e gosta de namorar

Ele tem ideias fixas
ela sonha ser bailarina
e viver livre a bailar

Ele gasta tudo em cerveja
Ela dá um pouco na igreja
ajoelha e põe-se a rezar

Ele saiu mudo da casa
Ela ficou calada na muda
Resolveram conversar

Ele descobriu que a ama
Ela desconfiou da fama
Mas se espremeram no lagar

Ele jurou pelo céu
Ela deliciou-se do mel
E deram-se a lambuzar

É isto aí!

domingo, 9 de julho de 2017

Jesus te salvou do que, afinal?

Alto lá
Este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
Autor: Padre Beto*
Fonte: Caros Amigos

Quem já não ouviu de um fanático religioso a frase coercitiva "Jesus morreu pelos seus pecados!”, uma frase que parece nos colocar em dívida com Deus. A frase parece ter a intenção de nos fazer sentir em falta com o “Criador” se não frequentamos uma determinada religião. De fato, no início da vida de Jesus (Mt 1, 18-24), o evangelista deixa claro que quem irá nascer será aquele “que vai salvar seu povo de seus pecados”. Mas sejamos sinceros: Jesus nos salvou do que?

Se analisarmos o desenvolvimento da humanidade depois de Jesus Cristo encontraremos uma história de derramamento de sangue em nome ou não de Deus, de escravidão negra, de extermínio de povos na América e África, de duas grandes guerras somente no século 20 e hoje não temos uma sociedade sem pecados, sejam eles individuais ou sociais. Então, do que Jesus nos salvou?

O problema está na pergunta formulada e não na resposta. A pergunta não pode ser feita no pretérito, mas no presente: Jesus nos salva do que? Esta pergunta possui muito mais relação conosco do que com Deus. Deus já fez a sua parte. Jesus é um paradigma, um modelo a ser seguido, o caminho, a verdade de Deus e, portanto, a vida. Cabe a cada um de nós seguir ou não este modelo, viver como salvo ou como condenado. E quando eu falo em seguir ou não este modelo não está falando em ser adepto de uma religião ou não. A questão está relacionada a valores. Se lermos com atenção os Evangelhos veremos que ao vivermos os valores pregados e vividos por Jesus encontraremos um caminho de salvação não somente individual, mas também coletiva.

Ao vivermos como Jesus somos salvos de muitos aspectos destrutivos da vida. Jesus nos salva da hipocrisia. Jesus é uma pessoa verdadeira e que critica (principalmente os religiosos da época) todos que constroem relações baseadas na falsidade ou nas conveniências sociais. Jesus nos ensina que, ao vivermos na sinceridade e na veracidade, construímos uma vida segura para todos. Jesus nos salva do individualismo, pois Ele se envolve em todas as circunstâncias que lhe aparecem pela frente. Jesus mostra que não existe neutralidade, esta é uma ilusão criada pelo ser humano. A partir do momento em que tomo ciência de algum fato, estou envolvido e, a partir deste momento, cabe a mim a decisão de ser omisso ou me comprometer com ele. Jesus nos salva da indiferença social. Ele se coloca do lado dos pobres, marginalizados, miseráveis, moralmente excluídos, ao lado das mulheres e crianças. Jesus nos salva do “pré-conceito”de qualquer espécie nos mostrando que cada ser humano deve ser respeitado e nenhum deve ser excluído por ser estrangeiros, mulher, portador de deficiências ou qualquer outro motivo. Jesus chega ao ponto de dizer aos fariseus que as prostitutas os precederão no Reino dos Céus.

Por fim, Jesus nos salva da alienação. Por isso, Jesus coloca como mandamento maior amar ao próximo como a ti mesmo. Para viver isso é necessário que eu reflita o que é amar  e como expressar o meu amor em cada circunstância. Como desejo ser amado? Assim devo amar as pessoas. Amar é deixar que o outro possa se desenvolver da sua forma e não da maneira que eu gostaria que fosse. Enfim, para amar eu preciso me conhecer melhor, conhecer o outro, conhecer a lógica de nossa economia capitalista, o sistema de corrupção em nosso país, a política educacional que temos o sistema único de saúde pública, a política do governo atual, etc.

Amar ao próximo não é romantismo ou uma ideia platônica. Amar ao próximo começa com um processo sério de desalienação e termina na ação concreta, na atitude política, no posicionamento contra toda forma de exploração e a favor da vida. Isso é salvação.


Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em história pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

É isto aí!

A Mulher Mais Bonita do Mundo (José Luís Peixoto)


Estás tão bonita hoje ...
Quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim,
quero dizer que estás bonita. 

Entro na casa ...
entro no quarto ...
abro o armário.
abro uma gaveta,
abro uma caixa
onde está o teu fio de ouro. 

Entre os dedos,
seguro o teu fino fio de ouro,
como se tocasse a pele do teu pescoço. 

Há o céu ...
a casa ...
o quarto ...
e tu estás dentro de mim. 

Estás tão bonita hoje. 

Os teus cabelos ...
a testa ...
os olhos ...
o nariz ...
os lábios ... 

Estás dentro de algo
que está dentro de todas as coisas,
a minha voz nomeia-te
para descrever a beleza. 

os teus cabelos ...
a testa ...
os olhos ...
o nariz ...
os lábios ... 

De encontro ao silêncio,
dentro do mundo, 
estás tão bonita
é aquilo que quero dizer.

sábado, 8 de julho de 2017

Maia vem aí!

Cidadãos e cidadelas, hoje nessa querida e próspera cidade deste grande país lanço a pedra fodamental que assolará o mais rigoroso dia de lua de nova. Teremos-nus brilho nos olhos, teremos lágrimas nos olhos, teremos olhos nos olhos de toda a gente honesta, funesta, cafajesta, etccesta etcesta e tal e testa, que comece logo a festa.

Nosso pogresso deve-ce muito mais ao que aqui falamos por assim dizer do que aquilo que não fazemos à vistas de vocês. Temos que lutar para tirar os ladrões, os fascínoraxos, os bandidos de fraque e bengala que se fingem de vivo mas são mortos de cemitério clandestino enterrados feito endegentes prolixos da querência clássica segundo disse a firmou o grande filósifo Calógeras Marconedes, que se assim não o disse nestas palavars, deveria te-las feito pois se dão bem com nossa pátria.

Eu se lá vá me vou acabar com as maracutaias dos adversários, vai tudo preso na prisão da penitenciária que tem lá no presídio da cadeia municipal da nossa cidade. Aqui basta ser nosso adversário para a gente saber que é ladrão. Nós somos a história viva desta cidade, nós somos bons, nós somos do bem, nós somos legais, nós somos ricos.

E para encerrar no fim e indo aos finalmente, vote-se em mim, por que seu eu ganhar eu vou transformar esta cidade naquilo que sempre fiz, só que com mais novidades, e se eu perder, não tem descanso, eu volto pela vontade das ruas amarelas, eu quebro tudo pelo força dos patos, eu arrebento e assumo pela vontade do meu povo. Amém

É isto aí!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

E por vezes (David Mourão-Ferreira)



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos    E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites      não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade' 

Uma pequenina luz (Jorge de Sena)



Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exata
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exatidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exatidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

(in FIDELIDADE, 1958)


"Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis" de Filipa Leal


Declamada por Pedro Lamares:

Ser digna na partida, 
na despedida, 
dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante, 
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, 
limpar-lhe as sapatilhas
com um pano úmido, 
ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, 
um jogo de lençóis, 
o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha 
que a Mãe usava 
sempre que partia
e que talvez não tenha usado 
quando partiu para sempre,
ter passado o dia 
à procura da medalha 
pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),

pensar que a data escolhida 
para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe 
não está comigo 
para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, 
nunca chorar,

mesmo que o Pai esteja a chorar, 
mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, 
se for preciso: 
uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; 
andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, 
jantar fora para não chorar, 
conhecer gente,
mas gente animada, 
pintar o cabelo 
e esconder as brancas, 
que os grisalhos são mais chorões, 
dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, 
os amigos gostam é de nós a rir, 
ver séries cômicas

até cair, acordar mais cedo 
para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, 
com doce de mirtilo, 
com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar 
que nunca mais 
seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado 
quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.