quarta-feira, 26 de abril de 2017

O Censo Fonográfico


Bom dia, senhor, somos do Censo Fonográfico do Ministério da Ordem Pública e Social do nosso glorioso e destemido Governo Instaurado, Inserido, Implantado e Protegido pela Companhia do Sagrado Coração dos Homens de Bem do Pato Amarelo, liderado pelo poluto e imaculado grande líder Dom Miguel, o Velho, doravante denominado somente como O Grande Líder, e queremos saber quais músicas o senhor escuta quando está triste.

Ahn? Como é que é?

Em nome da lei e da ordem, por determinação do Grande Líder, eu quero a relação das músicas que o senhor escuta quando está triste

Todas?

Não,  limitamos a doze, pois cientificamente acima disto o gosto musical começa a ser repetitivo, tendendo para apenas um ritmo, segundo estudos psico-fonográficos feitos pelo Estado Maior das Forças Sonoras do governo do nosso Grande Líder.

Interessante, não sabia que existiam estas coisas.

Há mais coisas entre o Poder Pleno dos Homens de Bem do Pato Amarelo e o senhor do que possa imaginar seu insignificante estado de ser e existir, senhor.

Bem, em sendo assim compulsório, visto a presença destes silenciosos senhores armados com potentes equipamentos de cunho letal, vou revelar:

Cunha, o senhor falou Cunha?

Não, podem abaixar isto daí, eu disse cunho, Cunho CU-NHO

Ah, bom, pode prosseguir.

Eu vou dar um pulo lá dentro para pegar meus cds.

Lulalá? O senhor disse lulalá?

Nãããããão. Caramba, precisa bater? Que isto agora? Não era só um censo? Eu disse um-pu-lo-lá.

Ah, bom, mas não pode sair daqui. Tem que ser espontâneo.

Tudo de uma vez?

Dilma vê? Dilma vê o que, senhor? Quer ser preso por desacato a autoridade? Está achando o que, seu merdinha?

Esquece. Vou citar alguns de cabeça, ok?

Certo, mas não vá nos enganar, hem - detectamos terroristas só pelo andar deles.

Terroristas? Mas não era só uma pesquisa ...

Quem pergunta aqui sou eu, senhor. Quero a delação, digo, a relação agora.

Bem, assim de ouvido, vamos lá:

Eu escuto Izumi Sakai  cantando Can't take my eyes off of you
Aquela japonezinha? Boa escolha

Eu escuto Vander Lee cantando Onde Deus possa me ouvir.
Hummm ... muito bom!

Eu escuto Stevie Wonder cantando For once in my life
Clássico, não é? É um clássico!

Eu escuto Willie Nelson cantando Crazy
Rapaz, você fica triste mesmo, hem!

Eu escuto Aline Hrasko cantando Eu não existo sem você
A garota capixaba. Gostei, está indo bem!

Eu escuto Yamandu Costa & Dominguinhos tocando Pedacinho do Céu
Excelente escolha! Excelente escolha. O que mais?

Eu escuto Astor Piazzola tocando Adios Nonino
Isto sim é ficar triste com classe. Prossiga.

Eu escuto Tom Jobim cantando Falando de amor
Musiquinha nheco nheco, mas cada um é triste à sua maneira. Próxima.

Eu escuto Raíssa Amaral tocando Bachianinha n° 1 (Paulinho Nogueira)
Linda a moça, e qualquer música cai bem nela. Boa escolha. Próxima.

Eu escuto Diana Krall cantando Este teu olhar
Um sofrimento com bossa, boa. Próxima.

Eu escuto Dalida cantando Paroles Paroles
Musa, não é? Musa. Parabéns pela escolha. Muito bem, senhor. Só mais uma e está liberado.

Mais uma ... mais uma ... puxa vida, difícil demais, vamos lá:
Eu escuto Pink Floyd cantando Another Brick In The Wall

Eu sabia!! Terroristazinho de merda! Por qual motivo o senhor escuta Pink Floyd?

Não sei, pelo amor de Deus, nem sei por que falei isto ... me dá mais uma chance, eu falo uma do Roberto.

Já teve a sua chance, senhor.

Não, eu canto qualquer coisa, eu nem sei de onde saiu esta música, nem conheço este pessoal, olha eu peço desculpas ...

Não há mais nada a fazer neste caso, e segundo o Código o senhor fez de boa fé uma delação de réu confesso e conforme as seis testemunhas oficiais aqui designadas em nome do Grande Líder e pelos poderes a mim instituídos, o senhor está sendo multado em 300.000 dinheiros por destruir a sequência lógica de manifestação sonora autorizada para estados tristes segundo decreto-lei 23.654-AX9 do Grande Líder, também conhecida como Lei Magna do Calado, para servir a ele, que é a  nossa força maior.

Além disto, como suspeito de terrorismo intelectual, está detido para averiguação musical de relevância ácida, digamos assim, e por porte de memória estranha à nova ordem. Por favor nos acompanhe ...

Madalena ... Ô mulher, Madalena!!!! Pelamordedeus, vem cá, mulher!!!!!

O que foi? Mas o que é isto? Agenor, o que está acontecendo? Quem são estas pessoas? Você está algemado?

Madalena, não tenho tempo para explicar, liga para o Osório e pede para ele ir urgente na na ... para onde vocês estão me levando mesmo?

Olha aqui seu terrorista, traidor da pátria, para onde estamos te levando não te interessa. E se está falando do Osório Almeida, aquele advogadozinho comunista da Avenida das Mangas, pode esquecer, por que ele já está lá.

Já está lá? Como assim já está lá?

Fez uma relação fraquinha fraquinha e em ato falho incluiu a esquerdochata Tracy Chapman, mas bastou uma pequena conversa que tivemos em local incerto e não sabido, te entregou rapidinho e posso ver que você é mais perigoso do que ele  - vamos vamos, lugar de terrorista é no buraco.

Madalena, faça alguma coisa ... liga para minha mãe ... liga para o Papa Francisco ... Madalena ...

É isto aí!

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ana Lobo esteve aqui

Para minha alegria (imensurável), recebo agora como leitora deste expositor das coisas do Reino da Pitangueira, a Ana Lobo.

Olha, Ana Lobo é um doce, uma das minhas maiores alegrias, que bom! que bom!

Olha, Ana, ache aqui um canto, se acomode, e declaro que até onde sua vista alcança é da sua liberdade total vagar, sem freio, sem censura, sem protestos,

Venha sempre, vem sem pressa!

Um forte abraço

Esta é a forma fêmea (Walt Whitman)

Antes de falar sobre a forma fêmea de Walt Whiltman, vamos dar um breve giro sobre a mulher do ponto de vista da poesia da pátria amada, idolatrada, salve salve todos menos os misóginos  - nada a temer e sua trupe torpe:

flickr
Abrindo um salão / Passas em exposição / Passas sem ver teu vigia / Catando a poesia / que entornas no chão (Vitrines - Chico Buarque)

Quando passas, tão bonita / Nessa rua banhada de sol / Minha alma segue aflita (Falando de amor - Tom Jobim)

Oh! como és linda, mulher que passas / Que me sacias e suplicias / Dentro das noites, dentro dos dias! (Soneto da devoção - Vinicius de Moraes)

Como as mulheres são lindas! / Inútil pensar que é do vestido... (Mulheres - Manuel Bandeira)

É que esta criatura, adorável, divina, / Nem se pode explicar, nem se pode entender: / Procura-se a mulher e encontra-se a menina, / Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher! (Falenas - Machado de Assis)

Agora, num momento espiritual, a descrição da mulher amada e desejada como está na Bíblia, nos Cântico dos Cânticos (Cantares) de Salomão 7, 2-10

"Como são graciosos os teus pés nas tuas sandálias, filha de príncipe! A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artista; 3.teu umbigo é uma taça redonda, cheia de vinho perfumado; teu corpo é um monte de trigo cercado de lírios; 4.teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela; 5.teu pescoço é uma torre de marfim; teus olhos são as fontes de Hesebon junto à porta de Bat-Rabim. Teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para os lados de Damasco; 6.tua cabeça ergue-se sobre ti como o Carmelo; tua cabeleira é como a púrpura, e um rei se acha preso aos seus cachos. 7.- Como és bela e graciosa, ó meu amor, ó minhas delícias! 8.Teu porte assemelha-se ao da palmeira, de que teus dois seios são os cachos. 9.Vou subir à palmeira, disse eu comigo mesmo, e colherei os seus frutos. Sejam-me os teus seios como cachos da vinha. 10.E o perfume de tua boca como o odor das maçãs; teus beijos são como um vinho delicioso que corre para o bem-amado, umedecendo-lhe os lábios na hora do sono. 


Esta é a Forma Fêmea

Esta é a forma fêmea: 
dos pés à cabeça dela exala um halo divino, 
ela atrai com ardente 
e irrecusável poder de atração, 
eu me sinto sugado pelo seu respirar 
como se eu não fosse mais 
que um indefeso vapor 
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado 
— artes, letras, tempos, religiões, 
o que na terra é sólido e visível, 
e o que do céu se esperava 
e do inferno se temia, 
tudo termina: 
estranhos filamentos e renovos 
incontroláveis vêm à tona dela, 
e a ação correspondente 
é igualmente incontrolável; 
cabelos, peitos, quadris, 
curvas de pernas, displicentes mãos caindo 
todas difusas, e as minhas também difusas, 
maré de influxo e influxo de maré, 
carne de amor a inturgescer de dor 
deliciosamente, 
inesgotáveis jatos límpidos de amor 
quentes e enormes, trémula geleia 
de amor, alucinado 
sopro e sumo em delírio; 
noite de amor de noivo 
certa e maciamente laborando 
no amanhecer prostrado, 
a ondular para o presto e proveitoso dia, 
perdida na separação do dia 
de carne doce e envolvente. 

Eis o núcleo — depois vem a criança 
nascida de mulher, 
vem o homem nascido de mulher; 
eis o banho de origem, 
a emergência do pequeno e do grande, 
e de novo a saída. 

Não se envergonhem, mulheres: 
é de vocês o privilégio de conterem 
os outros e darem saída aos outros 
— vocês são os portões do corpo 
e são os portões da alma. 

A fêmea contém todas 
as qualidades e a graça de as temperar, 
está no lugar dela e movimenta-se 
em perfeito equilíbrio, 
ela é todas as coisas devidamente veladas, 
é ao mesmo tempo passiva e ativa, 
e está no mundo para dar ao mundo 
tanto filhos como filhas, 
tanto filhas como filhos. 
Assim como na Natureza eu vejo 
minha alma refletida, 
assim como através de um nevoeiro, 
eu vejo Uma de indizível plenitude 
e beleza e saúde, 
com a cabeça inclinada e os braços 
cruzados sobre o peito 
— a Fêmea eu vejo. 

Walt Whitman, in "Leaves of Grass" 



É isto aí!

Vinicius de Moraes, o profeta!

Highland Patriot 
SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.

Vinicius escreveu este poema, Soneto de Separação, em setembro de 1938 a bordo do Highland Patriot, navio britânico de extrema importância comercial para a América do Sul pois fazia a rota regular Buenos Aires - Santos - Glasgow desde o início dos anos 30, com sua tara de mais de 14.000 toneladas.

Em 29 de dezembro de 1939, o Highland Patriot, navio civil de carga e de passageiros, foi atacado ao largo das Ilhas Canárias por um submarino francês. O comandante do submarino alegou que o navio parecia ser um corredor de bloqueio alemão. Nenhum dano grave foi detectado e o navio conseguiu chegar a Glasgow sem perda de vidas.

Às 06.47 horas do dia 1º de outubro de 1940, o Highland Patriot  foi atingido no meio do barco por dois torpedos G7e do submarino U-38, cerca de 500 milhas a oeste de Bishop Rock. Às 07:08 horas, o navio abandonado teve seu golpe de misericórdia feito por um torpedo G7a do U-38. Pegou fogo e afundou. Três tripulantes (ou cinco) morreram no episódio .

O comandante, 135 membros da tripulação e 33 passageiros foram apanhados pelo navio militar de escolta britânico HMS Wellington (L 65) (Cdr R.E. Hyde-Smith, RN) e aportaram em Greenock - Escócia.

Curiosamente, com os ataques aos navios do Atlântico Sul, fortaleceram-se os laços comerciais entre as partes do Atlântico Norte. Nada pessoal, apenas negócios ...
Submarino alemão U38

HMS Wellington


segunda-feira, 24 de abril de 2017

O "poder" é complexo e invencível

Alto lá
Este texto não é meu
Copiei e colei
Autor - Max
Fonte - Informação Incorrecta 


O "poder" é complexo e invencível

É o medo, meus senhores, tudo isso é o medo. O "poder" é feito de indivíduos, como nós, com as suas falhas, os seus defeitos, as suas paixões. Somos nós que acrescentamos o medo e este "poder" se torna algo superior, feito de tecnologias avançadas futuristas e inexistentes, feito de medidas aparentemente incompreensíveis mas na realidade absolutamente humanas.

O primeiro passo para combater o sistema não é entender como este funciona mas conseguir pô-lo no nosso mesmo plano: ultrapassar o natural sentido de inferioridade que cada indivíduo tem perante um organismo aparentemente mais complexo, perceber que este organismo é feito de muitas partes, cada uma pequena e cada uma perfeitamente ao nosso alcance.

Se não fizermos isso, o organismo permanece enorme, incompreensível, incontrolável, demasiado complexo: invencível. Mas é mesmo assim que proliferam os mitos: é desta forma que somos obrigados a inventar conspirações universais para tentar justificar coisas que aparentemente fogem à nossa lógica. Tal como o homem primitivo via um Deus atrás do relâmpago, da mesma forma nós tentamos explicar fenómenos aparentemente complexos com algo igualmente complexo e misterioso.

Vice-versa, uma vez analisado o relâmpago podemos entender que Deus nada tem a ver com isso: e o medo desaparece (fica só o medo de ser atingido por um relâmpago: mas, aos menos, morremos com a satisfação de saber que não foi por culpa dum Deus zangado connosco).

Afastadas as grandes conspirações galácticas, o medo desaparece de forma natural, as coisas regressam para o plano do humano, do perfeitamente compreensível. E o que pode ser compreendido pode também ser modificado. Não por nós, porque a simples realidade é que nós, todos nós, estamos velhos, independentemente da idade anagráfica.

O mal e o sofrimento (Leandro Gomes de Barros) declamado por Ariano Suassuna


Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

domingo, 23 de abril de 2017

Cartas de amor

Córrego da Passagem, domingo de tardinha

Deolinda amor da minha vida

Sinto sua falta, sinto muito a sua falta. Aliás a falta é tanta que falta até assunto. Nem sei o que dizer dessa sua querença de estudar na cidade. Nós nascemos aqui, Deolinda, somos torreões desta vila.

Saudade, muita saudade.

Do seu hoje e eternamente sempre Zé.


Ribeirão Bonito, 12 de janeiro.

Querido Zé,

Só hoje, passados sete dias, recebi sua cartinha. Linda, gostei demais da conta. Sete dias, Zé, pensa bem. Aqui na cidade tem um modo de mandar carta que dura um pensamento. O sujeito depois que aperta o botão onde escreve a carta não pode nem pensar em arrepender.
Também tenho saudades,

Deolinda.  

Córrego da Passagem, sábado de manhã, beirando o almoço.

Deolinda minha alma gêmea,

Não compreendi bem este negócio de carta em pensamento, daí que resolvi levar este papel nos lugares que a gente gostava de ir, para que leve também o cheiro e a paisagem daqui no pensamento. Nesta semana a porquinha que seu pai me deu, criou quatro leitõezinhos. Precisa ver que lindeza. Resolvi escrever a carta daqui do chiqueiro para que ela leve o perfume e a alegria da porca. precisa ver que belezura. Também fui até debaixo do pé de manga que tem na ponta do curral, onde nós dois crescemos em juras de amor. Mostrei o papel para as folhas, para as flores que estavam em ramo no chão, ainda não tem manga, mas quero desfrutar delas ao seu lado.

Do seu amor para toda a vida, Zé 

Ribeirão Bonito, 26 de janeiro.

Querido Zé,

Que bom que as coisa na roça estão sendo bem cuidadas. Aqui na cidade também tem cuidado para tudo. Tem caminhão só para pegar o lixo das casas, tem automóvel só para levar as pessoas prá lá e prá cá, tem  jardins e praças, umas tristes outras alegres, tem escolas tão grandes que parecem um castelo. Mas aqui tem muita modernidade que me leva a perceber que fiz a escolha certa. Quero que você seja feliz.

Deolinda. 

Córrego da Passagem, tardinha da sexta-feira, beirando a noite.

Deolinda, minha flor

Li sua carta e não entendi bem algumas palavras e principalmente o sentido delas, aí levei para a Augusta, lembra dela? Minha prima por parte de mãe, para ela me explicar. Ah! Deolinda, ela ficou muito feliz com a sua carta. Disse que ali estava o futuro dela bem na minha frente. Rodei os olhos para um lado, para o outro e não entendi bem o rumo da prosa. Sai mais confuso que que quando fui. Nestes dias a tia e o tio, pais dela, teve aqui em casa e ficou rodeando conversa com pai e mãe. Acho que eles estão querendo casar a moça com alguém da vila, só pode ser isto.

Do seu sempre Zé.

Ribeirão Bonito, 07 de fevereiro

Zé, meu amor,

Não mostre esta carta para ninguém, principalmente para a sirigaita da sua prima. Eu quero que você largue tudo aí e venha para cá imediatamente. Já arrumei um emprego para você, um lugar para morar, e já tracei todo o projeto do nosso destino. Vou mandar um dinheiro para você pela minha mãe, pois se meu pai souber, melhor nem saber. Aí você compra a passagem e vem.

Da sua Deolinda ...

Córrego da Passagem, noite de domingo com lua cheia

Deolinda,

Recebi sua cartinha, fiquei apreensivo achando que você estava passando mal, alguma coisa do tipo. Mas fiquei calado até o dia de hoje, quando a Augusta, o tio, a tia, os primos e até seu pai e sua mãe vieram aqui em casa comemorar meu noivado com ela. Acho que isto está ficando sério. 

Zé.

É isto aí!

A incrível história de Mineirinho, Dona Candinha, uma miríade de anjos e a delação premiada!


Mineirinho era viciado em velórios. Havia nele uma dependência quase beirando a loucura. Começou na infância quando um grande amigo da família faleceu. Naquele momento não só ficou triste e comovido, como também sentiu-se obrigado a participar dos velórios. Dizia que houve uma luz que o mostrou esta sina e uma voz celestial disse que ao velar o morto, a sua presença permitiria que este entrasse no reino dos céus.

Desta forma sua presença era motivo de orgulho na cidade. Durante vinte e dois anos seus discursos eram famosos, longos, densos e passionais. Cada defunto tinha um tema, uma história glorificante ao som da Banda Municipal de São Cristóvão. Na maioria das vezes era comunicado até mesmo antes do padre, do médico ou do serviço funerário para dar tempo de prepara o discurso e o salmo que cantaria. Como a taxa de mortalidade era pequena, uma média de uma por semana, a vida seguia sem maiores problemas.

Um dia, ah!!! um dia ... procurou o pároco novo da comunidade e confessou que um serafim deu a graça da sua presença e deu-lhe regras claras que jamais poderiam ser quebradas:

-  não velar crianças até os doze anos por que já pertenciam ao reino dos céus.
- não velar moças virgens solteiras por que já pertenciam aos reinos dos céus.
- não velar beatas do Padre Claudinho, que com seus 70 anos de sacerdócio já as elevara ainda em vida ao reino dos céus.
- não velar as moças da casa de Dona Darcy, pois era assunto para a cúpula celestial.
- não velar os imorais, os idólatras, os adúlteros, os homossexuais, os ladrões, os avarentos, os bêbados, os caluniadores e os assaltantes por que não entrariam no reino dos céus.

O padre novo, gordo e de olhos esbugalhados, olhou para ele, ficou vermelho, coçou o queijo, esfregou as mãos ... e pausadamente falou - diga meu filho, isto está valendo a partir de quando?

Desde agora, seu padre,

É, mas aí tem um problema.

Problema nenhum seu padre.

Mineirinho, meu filho, você tem certeza mesmo disto? Um Serafim? Não pode ter sido um anjo menos graduado?

Certeza certa, convicta e absoluta, seu padre.

Deu que naquela semana morreu o senador, que detinha este título por ter sido o terceiro suplente de determinado político de extensa ficha criminal. Mineirinho, devido à atenção celestial não foi, mas com uma forte compulsão já pressentida para estes momentos, acorrentou-se numa coluna interna da casa, e entregou a chave do cadeado ao sacristão que repassaria ao Padre, conforme combinado. 

Naquele dia o mundo desabou no velório. Foi um bafafá, um trelélé, um rififi que não tinha fim. Pressionado, o padre em total desespero falou que ele estava passando mal.

- Logo foi desmentido pelo Doutor Juquinha.

O padre em pânico pediu perdão por que não poderia revelar op motivo mas afirmou que Mineirinho estava cumprindo penitência

- Silêncio total - aquilo poderia ser verdade e não tinha como desmentir.  

Passado quase seis meses, quando ninguém mais se lembrava do episódio, já que tudo voltou ao normal, morreu Dona Candinha, uma mulher de 96 anos, folclórica pelas atividades culturais que agitaram o clube social e as festas da alta sociedade. E mais uma vez Mineirinho não foi. Era esposa do senador e matriarca da família mais rica de toda a região.

O delegado, neto da falecida, que já tinha escutado boatos da história do serafim através da esposa do sacristão, que era sua confidente íntima, mandou buscar Mineirinho em casa. Ao chegarem, os soldados depararam com ele preso à corrente. Bateram busca pela casa toda, não acharam a chave, mas um serrote serviu para cortar a coluna de braúna e aos tapas, empurrões, e uso de força excessiva, o conduziram ao velório.

Foi um vexame - esperneava, gritava em total pânico, debatia, virava os olhos, agarrava-se aos carros, às pessoas que estavam do lado de fora, saltava, se contorcia, se espremia, até que foi colocado no salão da casa. Ali aumentaram seus estrebuchos e movimentos histéricos. 

Um grupo de cidadãos o tiraram do lugar e o levaram para a igreja, pois em meio aos estridentes alaridos, pedia para ser deixado lá. Uma vez colocado na porta, aconteceu um milagre.

Segundo testemunho fiel do Padre Claudinho, que por obra do milagre divino, apesar de ser cego e surdo, viu, sentiu e ouviu a igreja sacudida por um forte tremor, seguido de fechos de luz fantásticos e o rufar de asas angelicais. Foi neste momento que ele testemunhou Mineirinho ascender aos céus junto com dona Candinha, levados por uma miríade de anjos.

É isto aí!

sábado, 22 de abril de 2017

Vander Lee - Onde Deus possa me ouvir


Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor, deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor, eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem,…

sábado, 15 de abril de 2017

Quanto do salário dos europeus são convertidos em imposto


Fonte - Notícias ao Minuto Portugal

Espanha - 39,5%
Grécia - 40,2%
Portugal - 41,5%
Eslováquia - 41,5%
Letônia - 42,6%
Eslovênia - 42,7%
Suécia - 42,8%
Rep. Checa - 43%
Finlândia - 43,8%
Áustria - 47,1%
Itália - 47,8%
França - 48,1%
Hungria - 48,2%
Alemanha - 49,4%
Bélgica - 54%


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Avalon Jazz Band - I love Paris (Cole Porter)

Carte Blanche Jazz band

And I love Her HD Original

Roy Orbison - Crying

João amava Lourdes que amava João

João amava Lourdes
Lourdes amava João.

Ele falante alegre,
Ela risonha discreta.

Ele  flertava com beijos
Ela somatizava desejos.

Ele analfabeto das letras
Ela letrada da vida

Ele entendia as coisas
Ela traduzia os fatos

Ele emitia sinais
Ela entendia no ato


Ele escutava música
Ela ligava nas notícias

Ele não queria festa
ela sossegava sua ânsia

Ele queria sexo
Ela o envolvia em amor

Ela fazia massagens
E ela adorava sacanagens

Ele não tinha amigos
Ela afastava a solidão

Ele beijava onde dava
Ela abraçava seu coração



Ele a queria sempre
E ela o queria louca

João amava sua Lourdes
Lourdes amava seu João.

João morreu de acidente
Lourdes morreu de paixão.

Encontraram-se no céu
Logo deram-se as mãos

Tocaram-se incrédulos
Sentiram da vida a pulsão

João amava Lourdes
Lourdes amava João.


É isto aí!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Como nascem os mitos

Detesto rótulos, portanto não me rotule, murmurou baixinho ao ouvido da entrevistadora, e isto é uma ordem.

Entendo!

Entende mesmo? Se está falando só para me agradar, cale a boca e escute.

Certo.

Certo, senhor! É assim que uma moça se dirige a uma autoridade constituída, entendeu?

Sim, senhor!

Ótimo, vamos lá! 

Senhor, quais serão as suas primeiras ações governamentais, se eleito?

Primeiro não existe o "se". Eu sou o eleito, o ungido, o escolhido, o salvador da pátria amada, salve salve lindo pendão da esperança, 

Desculpe, senhor, uma vez tomando posse do que é seu por direito, quais serão as sua iniciativas?

Acabar com favelas, com pobres crônicos, com filas em unidades de saúde e assistência social, eliminar núcleos onde só uma determinada e inferior parcela da sociedade vive sob os auspícios do grande e único poder branco, inteligente, ereto e viril, eliminar adversários e afastar dos amigos.

Alguma coisa poderá ser adiantada sobre o modus operandi destes feitos, senhor?

Não pergunte, e não é da sua conta, pois você ainda está contaminada com o saber destas escolas comunistas de formação acadêmica. Além disto, detesto narcisistas, balconistas, golpistas e falsos moralistas.

Alguma correlação, senhor?

Não me interrompa! Cale a boca e apenas faça a sua função. Eu detesto feministas intrometidas, homens fracos casados com mulheres fartas e políticos polutos.

Mais alguma coisa, senhor?

Sim! Odeio professorazinhas de história, filosofia e gramática, bem como titulados com mestrado e doutorado..  

O senhor teria algo mais a acrescentar, senhor?

Detesto maniqueistas, budistas, sufistas e neurologistas.

Neurologistas, como assim, senhor?

Precisava de uma rima convincente e achei que esta caiu bem.

Ficou bom, muito bom ... gostei! Posso divulgar no grupo de manipulação midiática, senhor?

Pode, mocinha, pode, mas coloca o autor, que sou eu, o único macho alfa capaz de deliciar os prazeres das mulheres desta pátria amada, idolatrada e também o único capaz de silenciar a classe comunista, socialista, contista, rentista, contabilista, esquisita, celetista e empregatícia que assola esta nação

E assim nascem as lendas e os mitos da grande rede vazia de ideias e de conteúdos ,,, 

É isto aí!

terça-feira, 11 de abril de 2017

“Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” Heinrich Heine (1797-1856)

Queima Livros pelos Nazistas 1933*
Subi a Colina do Bom Senso buscando uma explicação literária para o que ocorre na vizinhança e o que vejo na terra que tem palmeiras e onde canta o sabiá (e silencia a sabiá) é um fenômeno catártico, ainda não drástico, pelo menos por enquanto. 

Vários elementos se amontoam feitos folhas mortas em ballet de vento, mas são apenas isto - folhas mortas de páginas não lidas que estão sendo queimadas para que a maculada história seja apagada.

Tem um Dorian Gray que sofre muito por entender que sua beleza irá eventualmente desaparecer, e desta forma expressou recentemente o desejo de vender sua alma, para garantir que o retrato, em vez dele, envelheça e desapareça. Assim seguirá uma vida libertina de experiências variadas e amorais; enquanto seu retrato envelhece e regista todos os pecados que corrompem a alma.

Em outro patamar, vem ao caso um Julien Sorel , um jovem que não era alinhado ao establishment, mas que tratou de subir na vida, apesar do seu nascimento plebeu de origem afrodescendente, através de uma combinação de talento, trabalho duro, engano e hipocrisia, apenas por encontrar-se atraído por paixões externas, ocultas e secretas que lhe concedem poder e prazer. 

Falando em poder e prazer, há aqui um plágio grotesco de Fausto, temos o nosso Calabar Caipira, que uma vez pactuado com Mefistóteles para ser feliz ao lado de uma moça bela, recatada e do lar, desejou destruir tudo e todos. Fausto de Goethe foi ao Paraíso enquanto o infeliz e grotesco clone de Calabar é o anti-herói que não tem nenhum interesse de obter passagem ao céu. 

É isto aí!

Sobre a foto postada:

*Fonte - Milton Ribeiro

Entre os dias 10 de maio e 21 de junho de 1933, logo após a chegada ao poder de Adolf Hitler, foram organizadas centenas de queimas de livros em praça públicas com a presença de entusiastas, polícia e bombeiros e representantes do governo.

Tudo o que fosse crítico ou se desviasse da orientação nazista, deveria ser destruído. Os incêndios ocorreram por iniciativa do diretório nacional de estudantes nazistas.

Entre os livros queimados pelos nazistas estavam obras de Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Erich Kästner (que, anônimo, assistia a tudo), Robert Musil, Erich Maria Remarque, Joseph Roth, Nelly Sachs, Franz Werfel, Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx e Heinrich Heine.

Oskar Maria Graf não foi incluído na lista. Seus livros não somente não foram banidos como até foram recomendados pelos nazis. Em resposta, ele publicou um artigo intitulado “Verbrennt mich! (queimem-me) no jornal vienense “Arbeiter-Zeitung” (Jornal dos Trabalhadores). No ano seguinte, foi atendido.

A opinião pública e a intelectualidade alemãs ofereceram pouca resistência à queima. A burguesia tomou distância, passando a responsabilidade aos universitários. Também os outros países acompanharam a destruição à distância, chegando a minimizar a queima como resultado do “fanatismo estudantil”.

Os estudantes e membros das SA e SS participaram destes festins. As entidades estudantis NSDStB e ASTA competiram entre si, numa tentativa de uma mostrar-se melhor que a outra. A maioria dos livros queimados pertenciam à bibliotecas públicas. Eles eram de autores “pouco alemães”. O poeta nazista Hanns Johst foi um dos que justificou a queima, logo depois da ascensão do nazismo ao poder, com a “necessidade de purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã”.