segunda-feira, 20 de agosto de 2018

No divã da Pitangueira - Um vazio cósmico


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- Sabe, doutor, andei pesquisando no Youtube e descobri que estou em completa crise existencial cósmica, interestelar.

- Poderia, digo, conseguiria explicar melhor?

- Bem, o fato real e concreto que temos por enquanto, nesta terceira dimensão que vivemos, é que existem provavelmente cerca de 10 trilhões de galáxias no universo, sendo 2 trilhões observáveis, e só estes dois trilhões contendo mais estrelas do que grãos de areia no planeta Terra.

- Interessante. Vamos seguir com sua percepção estelar.

- Bem, aí começam meus problemas. Em sua maioria, estas galáxias possuem de 1 000 a 100 000 parsecs de diâmetro (1 parsec = 3,26156 anos-luz) e são separadas por distâncias da ordem de milhões de parsecs.

- Onde isso vai dar?

- Não percebe doutor? É o vazio que me une a ela e mantém as coisas em ordem, é a gravidade que assegura o ser e o estar de uma forma lógica, sensata e coerente entre nós. Então não seria este o vazio que há em mim, que é o amor? Ele, o vazio, não seria quem mantém nosso vínculo? Se eu curar dele vou cair no buraco negro da minha felicidade plena? 

- Opa ... calma! O vazio existencial não se relaciona ao vazio existente no Universo. O vazio existencial ao qual você auto-proclama coexistir é apenas um conceito psicanalítico, que se ocupa dos nossos conflitos emocionais.

- Puxa vida, então quer dizer que toda a teoria que levei horas pesquisando no Google, no qual o espaço intergaláctico é preenchido por um gás tênue com uma densidade média de menos de um átomo por metro cúbico não é o mesmo espaço que me une ao dela, numa conjunção cósmica?

- Eu lhe afirmo que não há nenhuma correlação entre eles. Então, não há como pegar pontos de um para justificar o outro.

-Puxa vida. Então não há um átimo de esperança de ainda existir algo entre nós?

- Veja só, vou te falar mais uma vez. A mulher ao qual você se refere é sua mãe, e ela é casada e bem casada com seu pai. O cordão que os unia rompeu-se no parto. É hora de navegar para outros portos seguros.

- Nããããããoooo ... nãããããõoooo ... mamãe me traiu... mã...mãe ... alguém, socorro ... mamãe ...

- Para com esta crise histérica. Semana que vem o aguardo, mas venha sozinho novamente, afinal, já é um rapaz de trinta anos, e outra coisa, só volte aqui se tirar esta roupa ridícula de marinheiro.

- Tudo bem, doutor, puxa vida ... tudo bem ... eu farei isto ...  por mamãe ... ai-ai, que isto? Chinelada, doutor? ai-ai, socorro, alguém ... mamãe ... ai-ai ...

É isto aí!

Melhor? Impossível.


Reza a lenda que Bananaland mandou um simpático cavalheiro à Paris na fundação da Liga das Nações a exatos cem anos, e sob a égide apache, não ficou até o final. Do outro lado da margem de desembocadura do Tejo, Sioux e comanches já haviam atinado para outros ares coisas bem diferentes dos ideais gauleses de igualdade, fraternidade e liberdade. Bananaland, salva das garras do império lusitano graças aos homens de bem, copiava e colava intuitivamente, já naquele tempo, que não apreciava muito esta conversa de Direitos Humanos, graças aos simpáticos celtas, amigos dos amigos dos amigos. ( ps - amigo do amigo do amigo não é amigo, sic nos guetos)

Passado poucas décadas daquele episódio glacial, e muitas guerras, e revoluções e centenas de milhões de mortos em todos os pontos cardeais, um simpático senhor, humildemente, cedeu uma área inóspita numa ilha em crescente ascensão, em terreno apache, para a criação de uma coisa mais dentro dos interesses da sabedoria do novo mundo, digamos assim. Aquele simpático senhor faturou bilhões em especulação imobiliária com a cessão do terreno, pois o entorno era todo seu e não bastasse esta sorte abençoada nos negócios, junto aos seu amigos, vem faturando até hoje almas, pessoas e coisas de uma forma asséptica, limpa, cristalina e romântica, desde que não se fale nesta merda de direitos humanos.

Enquanto isto, sempre fiel e solidária aos bons preceitos dos Homens de Bem, na alegria e na tristeza, nas Bahamas ou no Panamá, Bananaland acaba de ceder todo o seu parque tecnológico, toda a sua riqueza vegetal, mineral e animal, seus sonhos, seus aquíferos e suas praias a estes simpáticos cavaleiros piedosos, e para confirmar que cem anos são como um dia na mão de pessoas boas, Bananaland acaba de rasgar qualquer intenção de direitos humanos em terras tupy-guaranys. 

Onde já se viu isto? Um nativo achar que pode alguma coisa diante da beleza de ser, estar e existir do verbo To Be.

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França 1789)

Estes são os artigos tratados na declaração original de 1789 dos gauleses, que mantiverem na Liga das Nações, e que não valem para Bananaland, onde se plantando tudo dá aos homens bons e honestos do norte, como profetizou Caminha.

Art.1.º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.

Art. 2.º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.

Art. 3.º O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente.

Art. 4.º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei.

Art. 5.º A lei proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não pode ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene.

Art. 6.º A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos.

Art. 7.º Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência.

Art. 8.º A lei apenas deve estabelecer apenas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.

Art. 9.º Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei.

Art. 10.º Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.

Art. 11.º A livre comunicação das ideias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei.

Art. 12.º A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública; esta força é, pois, instituída para fruição por todos, e não para utilidade particular daqueles a quem é confiada.

Art. 13.º Para a manutenção da força pública e para as despesas de administração é indispensável uma contribuição comum que deve ser dividida entre os cidadãos de acordo com suas possibilidades.

Art. 14.º Todos os cidadãos têm direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, da necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente, de observar o seu emprego e de lhe fixar a repartição, a colecta, a cobrança e a duração.

Art. 15.º A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração.

Art. 16.º A sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos nem estabelecida a separação dos poderes não tem Constituição.

Art. 17.º Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia indenização.

To Be aí!

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Blue Valentine - Ryan Gosling sings "You Always Hurt the One You Love" HD


You Always Hurt The One You Love
You always hurt the one you love
The one you shouldn't hurt at all
You always take the sweetest rose
And crush it till the petals fall

You always break the kindest heart
With a hasty word you can't recall
So if I broke your heart last night
It's because I love you most of all

Você Sempre Magoa Aquele Que Você Ama
Você sempre magoa aquele que você ama
Aquele que você não deveria magoar mesmo
Você sempre pega a mais bela rosa
E esmaga-a até que as pétalas caiam

Você sempre quebra o coração mais gentil
Com uma palavra apressada da qual você não lembra
Então se eu parti seu coração noite passada
É porque eu te amo acima de tudo

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Sobre ruínas e vendavais


Era uma vez
aquela vez
quando se erra
e se erra de vez.

E era a vez
Era aquele agora 
Eram os clichês
Era hora de chorar

Maldito instante
as vozes as lágrimas
os olhares as pausas
dia de ser infeliz

perdoar e ficar     
odiar e fugir
perdoar ou fugir
odiar ou ficar

o coração contraido
a negação do porvir
sentir-se um rio 
dando calote no mar

partir partir
sem adeus
que foi
o deus da vez.

É isto aí!

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Preciso Me Encontrar (Cartola)



Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por…






segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Só (Edgar Allan Poe)

Desde a infância eu tenho sido
Diferente d'outros – tenho visto
D'outro modo – minhas paixões
Tinham uma outra fonte e
Minhas mágoas outra origem -
No mesmo tom não despertava
O meu coração para a alegria -
O que amei – eu amei só.
Então – na infância – a aurora
Da vida atormentada – estava
Em cada nicho de bem e mal
O mistério que me prendia -
Da correnteza, da fonte -
Da escarpas rubras do monte -
Do sol que me rodeava
Em pleno outono dourado -
Do relâmpago nos céus
Quando sobre mim passava -
Do trovão, da tormenta -
E a nuvem tem a forma
(Quando o resto do céu é azul)
D'um demônio aos meus olhos.

sábado, 4 de agosto de 2018

As eleições no reino

D. Maria I, a Piedosa
Como sabem, e já falei sobre isto, da Colina do Bom Senso acesso o Putoscópio, o potente aparelho de observação política em Bananaland. Como tinha poucos créditos no meu Nókia analógico, obtive poucas e assustadoras observações sobre o fenômeno quadrienal na famosa pátria amada pelos vikings, celtas, apaches, comanches e sioux. Então consultei o Mago da Pitangueira que me assombrou com suas previsões.

Algumas publicáveis:

- Meu filho, os astros estão em polvorosa depois da Lua de Sangue, não posso dizer tudo que vejo, mas eis algumas reflexões:

- Vejo um réu que é refém por dentro e por fora, mas mais por dentro do que por fora.

- Assim como disse Dom Corleone, os traidores são amigos de longa data que negociarão acordos mágicos entre as partes. Parecerão sinceros mas são os piores inimigos.

- A justiça é cega, surda e muda, já a injustiça ...

Mago ... puxa vida, tem algo mais que possa ser pior  do que isto?

- Nada que uma colônia não saiba 

Como assim, Mestre?

- O reinado do próximo príncipe será de grande atividade legislativa, comercial e diplomática, na qual se poderá destacar o tratado de comércio que assinará com os homens de bem. Desenvolverá a cultura e as ciências, com o envio de missões científicas à Casa da Mãe Joana, e a fundação de várias instituições, entre elas a Academia Real das Ciências de Bordel e a Real Biblioteca Pública de Corte e Costura. No âmbito da assistência, fundará a Casa Pia de Brasília. Fundará ainda a Academia Real de Martinha para formação de oficios pré-aprovados.

A 2 de janeiro promulgará um alvará impondo pesadas restrições à atividade industrial de Bananaland, para salvar o Planeta de grandes e graves poluições produzidas pela choldra. Durante seu reinado ocorrerá o processo, condenação e execução do povinho suburbano.

Mas, Mestre, isto tudo já ocorreu no Reinado de Dona Maria, a Louca

- Louca para você súdito ingrato, pois para a corte e para a fina flor da sociedade era reconhecida como Maria, a Piedosa ...

Meu Deus do céu, Mestre ...

- Esqueça, filho, quando a trinca poderosa (com jucá&tudo) come o fruto proibido do Paraíso do Golpe, ninguém sai ileso.

É isto aí!  



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Estou ficando velho ...

Havia no final da rua, na casa verde da direita, um homem solitário, de pouca conversa e nenhum convívio. Engraçado, nunca ouvi a voz dele. Na casa de reboco e janela torta, que eu chamava de casa Torta, morava um casal, ela era lavadeira, ele carpinteiro de dia e bêbado de noite. Um excelente carpinteiro, e nunca ouvi gritando, cantando, enfim, era o bêbado triste eu acho.

Na casa da castanheira, falando assim por que, claro, tinha uma enorme castanheira na frente, morava a dona Rosa, um senhora de idade indefinida, pele enrugada e rosto tenso em tempo integral. Eventualmente o homem da casa verde da direita entrava e ficava por um tempo na casa da castanheira.

Na casa do muro, a única que tinha muro na rua descalça, morava aquela que seria por anos o alimento dos meus sonhos mais prazerosos. O que aconteceu com ela? Perdi o contato e a visão das suas pernas flutuando na rua descalça. 

Tinha a venda do Zé Vieira, tinha a Marlene (nunca entendi bem do que vivia a Marlene), tinha os meninos da rua de baixo que vinham jogar bola com a gente, por que na nossa rua não passava carro e sobretudo por que os adultos não rasgavam as bolas.

Dia destes fui a um casamento e a mãe do noivo era desta época, morava na casa do tarrafeiro, era filha dele. Nos vimos, nos cumprimentamos e pronto, só isto, achei engraçado - não éramos da mesma turma ...rs

Engraçado a infância, ela guarda muitas histórias, mas nomes não importam. Estou ficando velho ...

É isto aí!

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Da Colina do Bom Senso


Dia destes estive no Observatório Imperial da Colina do Bom Senso, no Estado de Direito Monocrático e Democrático do Reino da Pitangueira, conquistado e concedido a mim por mim mesmo mediante cláusulas pétreas, perfeitas e serenas.

Na Colina do Bom Senso observei Bananaland, a próspera pátria do futuro onde jorra leite e mel. Poderia aqui desfiar fio a fio o que vi, mas não precisa - Bananaland está condenada a ser apenas o que seus dominadores marcianos, plutonianos, jupiterianos e saturninos desejarem que seja. Só e somente só isto. 

É isto aí!

terça-feira, 31 de julho de 2018

Serviço de Intermediação de amor


- Bom dia, senhor, sou a Divina, e estou aqui para servi-lo. Pois não?
- Olá, é aqui que compram amor?
- Bem, nesta repartição pública não usamos este termo "comprar", mas sim, guardamos o seu amor para alguém que necessite dele.
- E como faço para vende-lo?
- Bem, senhor, a intermediação do seu amor para outrem é simples. Preencha este formulário de próprio punho e entregue no guichet 4, para o Freitas, da nossa seção responsável por este processo.

- Sr. Freitas?!
- Pois não?
- Eu vim para fazer  o processo de intermediação do amor.
- Preencheu o formulário?
- Sim
-  Deixa eu ver ... deixa eu ver ... hummmm, ihhh! rapaz - Ôôô Farias (aos plenos pulmões), Ôô Divina, chama aí o Farias no microfone. - Dr. Farias, favor se apresentar no guichet 4 ...
- O que está acontecendo? O senhor não poderia ser mais discreto? Algum problema.
- Momentinho, o Farias já vem.

- Pois não Freitas?
- Farias, olha só este formulário ...
- deixa eu dar uma olhada ... hummmm, hummmm ... nossa ... que coisa hem Freitas.

- Os senhores poderiam me dizer o que está acontecendo?

- Pode deixar, Freitas, agora é comigo. O senhor me acompanhe por favor até minha sala.
- Olha, pode deixar, eu nem quero isto mais.
- Não, não, faça isto. É para o seu próprio bem. Pode vir.
- Tudo bem, eu vou ... disse num tom de lamento.

- Bem, o senhor colocou aqui que é um amor antigo, que ainda tem cartas dela. 
- Sim, tenho algumas cartas, conservadas nos envelopes originais.
- Cartas? Este amor é do tempo das cartas? Caramba. E fotos, o senhor tem fotos?
- Tenho uma. Aqui, dá um olhada.
- Uau, que gata, hem ... mas e tem foto atual dela ou esta é da filha dela?
- É dela, eu copiei de uma rede social.
- Como é que é? De uma rede social? Dona Divina, manda chamar urgente o Almeida na minha sala.

- Dr. Almeida, favor comparecer com urgência na sala do Dr. Freitas ... Dr. Almeida ...

- Fala Freitas, qual é o assunto tão grave que me fez sair de uma reunião com...
- Almeida, ele quer desfazer de um amor antigo, mas tem foto copiada de rede social.
- deixa eu ver a foto ... uau, Freitas, que morena, hem ... é filha dela?
- Ele falou que é ela hoje, Almeida.

- Prazer, sou o Dr. Almeida, Coordenador Geral desta repartição. Quanto à foto, o senhor acessou clandestinamente ou recebeu permissão para isto?
- Eu solicitei e ela deu permissão.
- Assim? O senhor acessou a página dela, pediu licença e ela deixou entrar? E aí o senhor teve acesso a todas as fotos dela?
- Sim, foi assim.
- É ... isto é um complicador.
- Como assim?

- Senhor, só por curiosidade, quanto o senhor quer por este amor?

- Dr. Almeida, eu quero o fim da insônia, a redução da angústia e o aniquilamento da saudade.
- Mas olha que morena, hem... O senhor tem certeza?
- Tenho.
- Sem olhar a foto, descreva-a para mim.
- Ela é linda, é mais nova que eu entre três e quatro anos, morena, tem um metro e cinquenta e cinco mais ou menos, cabelo escuro liso e curto, partido da direita para a esquerda, olhos castanhos amendoados, olhar triste, sobrancelha bonita, sorriso encantador, duas covinhas, uma boca celestial, uma voz aveludada, mãos de fada ...
- Pode parar. Olha, eu vou te falar que o preço até está justo, mas num caso destes a gente não compra, por que amanhã o senhor estará aqui arrependido. E disto eu conheço. 
- Mas ... mas ...
- Sinto muito ...

É isto aí!

Vingança (Fernando Mattoso/José Maria Abreu) - Mariana e David Salgado


Lá na beira do roçado, onde a tristeza não vem
Eu vivia sossegado com a viola do meu lado 
Mais feliz do que ninguém
Numa festa no arraiá vi dois óio me olhá
Decidi no improviso, ela me deu um sorriso
E comigo foi morar

Nunca mais fui cantador e a viola descansou
Eu vivia pra cabocla, eu vivia pra cabocla
Só pensava em meu amor
Nunca fui feliz assim, eu mesmo disse pra mim,
Pensei que a felicidade, pensei que a felicidade
Não pudesse ter um fim

Mas um dia a malvada foi-se embora e me esqueceu
Com um caboclo decidido, Juca Antônio conhecido
Cantador mais do que eu
Já cansado de esperar, desisti de procurar
A cabocla que um dia levou minha alegria
E eu jurei de vingar

Numa festa fui cantar e a mulata tava lá
Juro por Nossa Senhora, juro por Nossa Senhora
Que a cabocla eu quis matar
Mas fiquei sem respirar quando vi ela dançar
Ela tava tão bonita, ela tava tão bonita
Que esqueci de me vingar

Mônica Salmaso - Vingança (Fernando Mattoso/José Maria Abreu)


Lá na beira do roçado, onde a tristeza não vem
Eu vivia sossegado com a viola do meu lado 
Mais feliz do que ninguém
Numa festa no arraiá vi dois óio me olhá
Decidi no improviso, ela me deu um sorriso
E comigo foi morar

Nunca mais fui cantador e a viola descansou
Eu vivia pra cabocla, eu vivia pra cabocla
Só pensava em meu amor
Nunca fui feliz assim, eu mesmo disse pra mim,
Pensei que a felicidade, pensei que a felicidade
Não pudesse ter um fim

Mas um dia a malvada foi-se embora e me esqueceu
Com um caboclo decidido, Juca Antônio conhecido
Cantador mais do que eu
Já cansado de esperar, desisti de procurar
A cabocla que um dia levou minha alegria
E eu jurei de vingar

Numa festa fui cantar e a mulata tava lá
Juro por Nossa Senhora, juro por Nossa Senhora
Que a cabocla eu quis matar
Mas fiquei sem respirar quando vi ela dançar
Ela tava tão bonita, ela tava tão bonita
Que esqueci de me vingar


domingo, 29 de julho de 2018

Quase retornando

Este reino voltará quase à normalidade (???) e à rotina de labuta tradicional no decorrer desta semana (assim espero). Recebi milhares de mensagens, num total de cinco unidades, onde heroicas moças de boa família e de fino trato buscaram informações sobre a Pitangueira. Muito obrigado a todas vocês que enviaram perguntas sobre a suspensão das postagens

A maioria das quatro mensagens recebidas foi bem educada, maioria por que das quatro teve uma  muito elegante (uau) e também teve mamãe, que escreveu para saber se estava tudo bem, e como sabem, mamãe não conta.

Bem, vida que segue!

É isto aí!

domingo, 22 de julho de 2018

Se queres saber - Monica Salmaso e Guinga

Se queres saber
Se eu te amo ainda
Procura entender
A minha mágoa infinda
Olha bem nos meus olhos
Quando eu falo contigo
E vê quanta coisa
Eles dizem que eu não digo

O olhar de quem ama diz
O que o coração não quer
Nunca mais eu serei feliz
Enquanto vida eu tiver

Lázaro Ramos e Diva Guimarães l Espelho

sábado, 21 de julho de 2018

Dúzias de oito ou "Cenas de uma autobiografia não autorizada"


Na mocidade em BH, lembro que ela vendia rosas na esquina da Tamoios com a Rio de Janeiro, atrás da Igreja São José. Eu gostava de passar por ali apenas para ver seu sorriso, iluminando as manhãs da cidade. Tinha dezessete anos, e aos dezessete anos apaixona-se até pela brisa que por ato do acaso nos envolva num repente da primavera. 

Então foi assim a primeira paixão, uma coisa floral, andarilha e descompassada. Agora estou com dezoito anos, tem a menina da escola, que julguei ser amor eterno (esqueci seu nome) e estou na Afonso Pena, chegando na Curitiba, rumo ao ponto de ônibus. Uma moça linda (inesquecivelmente linda) aos meus olhos me pergunta algo, como as horas, ou uma rua, não me recordo da pergunta. Mas ao olhar seus olhos, estava tão perdida quanto eu naquela cidade. Beijamo-nos ali - demoradamente - e abraçamo-nos apaixonadamente. Beijo e abraço inesquecíveis, cujo sensorial ainda persiste. 

Nunca soube seu nome, sua origem ou seu destino, mas acredito que selamos um pacto de sermos inesperadamente perceptores dos nossos desejos. Não voltei mais àquela esquina, pois na semana seguinte parti para Juiz de Fora, que não saiu de mim até a presente data, mesmo depois de dar a volta ao leste, ao sul, ao nordeste, além mar e trás os montes.

São coisas escondidas  nos segredos mais bem guardados no cofre ultra blindado das memórias. Numa fase difícil, onde tinha poucas respostas para muitas perguntas, encontrei uma solução parcial para estas lembranças persistentes. Em homenagem à florista, de saudosa paixão da pré-juventude, passei a denominar estes pensamentos inconclusivos, mal resolvidos ou indeterminados de dúzias de oito. São dúzias, mas sempre percebendo que ficou alguma coisa faltando ali. No meio deles, acabei encaixando a Teoria do Hiato Passional. E a vida seguiu com ou sem minha vontade.

O Ministério do Ego informa: Por ser este texto parte de uma autobiografia não autorizada, poderá ser suspenso a qualquer momento por força de alguma liminar memorial ou por um tribunal da consciência debochada. Amém! Assim seja!

É isto aí!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

E a diferença é você


Começou a ficar triste aos poucos. Até que um dia, ainda conectado ao mundo, aos amigos, ao trabalho, à família, fugiu para dentro de si. Buscou refúgio apenas nas suas memórias, e desta forma abandonou o real para viver o talvez, o se, o será que, enfim, a amarga sensação de que o tempo não para, desde que a alma resista.

Quando vinha à tona parte das sensações experimentadas no amor que teve, perdia-se em horas sentado num canto do quintal, fitando o nada e escutando Dinah Washington em What Difference A Day Makes. Às vezes chorava, às vezes ficava apenas triste, no geral era um ser inerte até o momento do poente da dor.

Raramente conversava, e nestes momentos referia-se a um mundo particular, envolvido no manto do universo cósmico. - Já repararam que até o tempo, que é instável, flui por forças estáveis. Ora sol, ora chuva, ora vento, ora brisa, frutos da previsibilidade do dia e da noite, das fases da lua, dos solstícios. Então é isto, quem sabe talvez o amor esteja dentre as imprevisibilidades contidas na previsibilidade de um universo organizado e ordenado em funções concatenadas umas às outras.

Chegou a fazer ensaios de poesia, mas tudo acabava sendo descartado, como descartáveis são os segundos que se passaram sem ela, murmurava. Não, não ... menos ela, ela é tangível, tangenciável, tateável. Nosso amor começou com uma  desconexão de partículas do seu universo perceptível, que foram criando matérias, luzes, sons, e acabaram por se dissiparem na loucura do medo - O medo, ah!!! o medo tem medo, o medo não tem modos, o medo é modal, o medo é mudo, o medo é uma merda. Eu quero você, dizia ela, para sempre por que nunca é tempo demais, mas eu dizia sempre que o nunca é uma palavra perigosa que quando entra em ação, o jamais agradece os aplausos da consciência crítica aos meus erros.

E na vitrola, Dinah Washington  encantava com sua voz, numa tradução livre que fizera numa madrugada dentre tantas outras, acordado por ela:

Que diferença um dia fez
Vinte e quatro pequenas horas
Trouxe o sol e as flores
Onde costumava haver chuva

Meu ontem foi triste, querida
Hoje sou parte de você, querida
Minhas noites solitárias estão terminadas, querida
Desde que você me disse que era minha

Senhor Deus, que diferença um dia faz
Existe um arco-íris diante de mim
O céu acima não pode ser tempestuoso
Desde aquele momento de felicidade, aquele beijo emocionante

É céu quando você encontra romance em sua lista
Que diferença um dia fez
E a diferença é você

Que diferença um dia fez
Existe um arco-íris diante de mim
O céu acima não pode ser tempestuoso
Desde aquele momento de felicidade, aquele beijo emocionante

É céu quando você encontra romance em sua lista
Que diferença um dia fez
E a diferença é você

É isto aí!


Dinah Washington 

What A Difference A Day Makes
What a difference a day made
Twenty-four little hours
Brought the sun and the flowers
Where there used to be rain

My yesterday was blue, dear
Today I'm part of you, dear
My lonely nights are through, dear
Since you said you were mine

Lord, what a difference a day makes
There's a rainbow before me
Skies above can't be stormy
Since that moment of bliss, that thrilling kiss

It's heaven when you find romance on your menu
What a difference a day made
And the difference is you

What a difference a day makes
There's a rainbow before me
Skies above can't be stormy

Since that moment of bliss, that thrilling kiss
It's heaven when you find romance on your menu
What a difference a day makes
And the difference is you

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Os versos que te fiz (Florbela Espanca)

Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Flor da pele (Zeca Baleiro)

Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde 
Com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo final

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

Oh sim eu estou tão cansado,
Mas não pra dizer,
Que não acredito mais em você

Eu não preciso de muito dinheiro,
Graças a Deus
Mas vou tomar aquele velho navio,
Aquele velho navio..