quarta-feira, 18 de junho de 2014

Um conto da Luz


Acordei cansado, com aquela sensação de uma noitada intensa, apesar do frio e da solidão do quarto. Levantei com dores espalhadas em músculos até então discretos e solidários. No criado mudo um bilhete em papel amarelo, com grafia Voynich, em tinta verde escuro.

Confuso, caminhei até o banheiro, todo molhado, duas toalhas no chão, a banheira ainda cheia e uma necessaire na bancada, com aquelas dezenas de utilidades femininas.

Após o banho, mente vazia, caminhei ao closet, e tudo estava estranho, as roupas eram minhas, e apesar de saber que estava em casa, estavam rigorosamente arrumadas.

Na cozinha uma garrafa vazia de um legítimo pinot noir da Borgonha, ao lado de duas taças de cristal que desconheço a origem. Fiz um expresso duplo, que bebi devagar, sem açúcar, tentando lembrar de algo referente ao que via. Nada... nem sequer uma réstia de lembrança.

Na sala havia uma foto, como um desenho, em tons lilás, e eu com minha favorita camisa azul. Não vejo rostos, estamos nos beijando e atrás há um facho de luz intenso. A princípio achei que era uma fonte, mas minha memória fez referência a este processo luminoso. 

Saí aturdido, entrei no elevador, alcancei o hall, onde seu Joãozinho estava sentado como sempre ficou, olhei para o relógio da portaria, que marcava sete e quinze da manhã. Procurei a chave do carro no bolso, e não a encontrei. Voltei ao apartamento. A porta não abria. Conferi o andar e o número. Voltei ao hall, e havia uma pessoa diferente na recepção.

Fui para a rua e percebi que estava em um local incerto e não sabido. Não reconheci o ambiente externo e em desespero, ao ver que uma moça passava ao meu lado, segurei-lhe firmemente pelo braço, olhou assustada para mim e gritou. Vieram dois policiais e imediatamente me prenderam. Na delegacia ninguém acreditou ou entendeu a minha história.

Não tinha documentos, os endereços e telefones que forneci não existiam, as pessoas que indiquei eram desconhecidas e meu endereço residencial não era meu.  O delegado olhava com aquele jeito duro que os policiais olham as pessoas - queria entender o que passava. Eu não havia cometido nenhum crime, mas a minha versão era no mínimo estranha.

Um moça educada e simpática encaminhou-me para uma sala de conforto espartano, onde acabei cochilando. Mergulhei numa cascata de luz e acordei novamente em casa. Desta vez ela estava presente, linda, perfumada. Não sei se morri ou viajei em um deslocamento espaço-temporal, mas não estou muito preocupado com isto agora.

É isto aí!


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